Capítulo / Chapter III | Cinema – Comunicação / Communication

Àwòrán: Visual Representation and the Creation of Characters in Black Animation Cinema

Àwòrán: a representação visual e a criação de personagens no Cinema Negro de Animação

Peregrino, Pâmela

UNIRIO, Brasil

Araújo, Cinara

UFSB, Brasil

Costa, Marysol da Silva

UFSB, Brasil

Santana, Maiara Scher

UFSB, Brasil

Santos, Crislayne Bonfim

UFSB, Brasil

Giarola, Gabrielle da Conceição

UFSB, Brasil

Abstract

Our research investigates the pedagogical and aesthetic dimensions involved in the creation of images in African and Afro-diasporic animated films, focusing on the representation of Black bodies, costumes, the construction of spaces, and the narratives that compose these visual universes. African and Afro-diasporic traditions are strongly sustained by oral practices, but also by an important imagetic foundation, in which images function as repositories of knowledge, memory, and ancestral practices. The study adopts the epistemology of the crossroads as its theoretical-methodological framework, understood as a conceptual operator that privileges the encounter between knowledges, circularity, and the movement across different cultural perspectives. The research articulates theoretical analysis and action research. Methodologically, it involves: (1) a bibliographic survey and mapping of African and Afro-diasporic animated films; and (2) the organization of film screenings and discussion circles in public schools, aiming to understand children’s and adolescents’ perceptions regarding the construction of Black characters in animation. The results point to advances in discussions on ethnic-racial issues within schools, while also revealing the persistence of racial stigmas in the school environment, especially those related to kinky hair and Afro-Brazilian religions. We observed that initiatives such as the Àwòrán Project contribute to expanding students’ critical development, strengthening Black identities, and supporting the implementation of Law 11.645/2008 in Brazil. Thus, the study seeks to deepen the concept of Black Animation Cinema, highlighting its potential as a tool for anti-racist education and for the reconstruction of collective imaginaries.

Keywords: Black Animation Cinema, Anti-racist Education, Afro-Diasporic Imaginaries, Visuality, Crossroads Epistemology.

Começar a caminhada

As imagens sempre ocuparam um papel central nas formas de elaboração simbólica das culturas africanas e afrodiaspóricas. Embora frequentemente associadas à oralidade, tais tradições também se constituem por complexos sistemas imagéticos que articulam memória, ancestralidade, espiritualidade e transmissão de saberes. Vestimentas, grafismos, máscaras, esculturas, objetos rituais, corporeidades e performances produzem visualidades que funcionam como reservatórios de conhecimentos e cosmopercepções.

No contexto contemporâneo, o cinema de animação vem se tornando um importante território de retomada dessas imagens e narrativas. Em oposição às representações coloniais e estereotipadas historicamente disseminadas pelo audiovisual hegemônico, realizadoras e realizadores negros tem criado filmes que apresentam personagens negras complexos, afetivos, ancestrais e politicamente situados. Essas produções articulam estética, memória e educação, criando novas possibilidades de percepção do corpo negro e das culturas africanas e afro-brasileiras.

É nesse contexto que emerge o conceito de Cinema Negro de Animação (CNA), entendido como uma linguagem cinematográfica produzida “desde dentro”, marcada pela representatividade negra nos processos criativos e pela construção de narrativas comprometidas com a valorização das experiências negras e afro-diaspóricas (Peregrino e Souza 2020).

A presente pesquisa investiga as dimensões pedagógicas e estéticas envolvidas na criação de imagens em filmes de animação africanos e afrodiaspóricos, com foco na representação do corpo negro, nos figurinos, na construção dos espaços e nas narrativas que compõem esses universos visuais. O estudo parte do entendimento de que a imagem não atua apenas como elemento ilustrativo, mas como dispositivo formador de subjetividades e imaginários sociais.

A pesquisa integra as ações do projeto Àwòrán, voltado para estudos e experiências na criação de imagens para filmes de animação com histórias africanas e afro-diaspóricas. O termo “Àwòrán”, oriundo da língua yorubá, pode ser compreendido como imagem, desenho ou representação visual, sintetizando a centralidade da imagem na construção de pedagogias negras.

Os resultados aqui apresentados são frutos do Projeto de Pesquisa e Iniciação Científica “Àwòrán: a representação visual e a criação de personagens negras no Cinema de Animação” (2024-2025) que contou com as bolsistas Marysol Costa, Maiara Scher, Crislayne Bonfim e o Projeto de Iniciação Tecnológica “Àwòrán: desenvolvimento tecnológico para produção de animações Stop Motion” que contou com a bolsista Gabrielle Giarola. Ambos projetos foram idealizados e coordenados pela professora Dra Pâmela Peregrino até março de 2025, quando a professora Dra Cinara de Araújo assumiu. Ambos projetos foram desenvolvidos na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e contaram com bolsas da própria instituição e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico CNPq/Brasil.

A pesquisa de Iniciação Tecnológica, que caminhou lado a lado das ações pedagógicas foi realizada com o intuito de entender como a tecnologia disponível hoje pode responder às demandas da pós-produção de animações em stop-motion, especialmente de baixo custo. O uso de ferramentas disponíveis foi fundamental para que os resultados pudessem ser obtidos. Esse ramo da pesquisa “Àwòrán” foi protagonizado pela bolsista Gabrielle Giarola.

Nosso objetivo é compreender de que maneira o Cinema Negro de Animação pode atuar como ferramenta pedagógica antirracista, contribuindo para o fortalecimento identitário de crianças e adolescentes negras/os e para a implementação das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que estabelecem a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana, afro-brasileira e indígena nas escolas brasileiras.

Cinema Negro de Animação e pedagogias da imagem

Em um dia desses, riscaram minha pele-pólvora-negra. Foi quando recebi uma imagem, uma fotografia da minha mãe e eu segurando seu braço. Essa imagem mexeu muito comigo, logo eu chorei como uma criança, eu não imaginava ver seu rosto dessa forma, ela ancestralizou em 2010 e eu não tive muitas oportunidades de ter lembranças de seu rosto. Essa imagem me atravessou e chegou em lugares onde nossa pesquisa tanto se aprofunda: como é importante sermos bem retratados ao lado de quem amamos, corpos negros e felizes sendo registrados com respeito, todavia, atualmente tem se tornado cada vez mais raro devida as crescentes ondas de racismo
(Marysol da Silva Costa. Relatório final de pesquisa, 2025).

O conceito de Cinema Negro de Animação vem sendo desenvolvido a partir de pesquisas e produções audiovisuais que articulam estética negra, ancestralidade e representatividade. Segundo Peregrino e Souza:

Afirmamos o CNA como um cinema do desde dentro, ou seja, estamos falando de uma animação demarcada pela representatividade, onde todo processo de criação e equipes principais são formadas por pessoas negras (Peregrino e Souza 2020, 352).

Mais do que um recorte temático, o CNA constitui uma forma específica de construir imagens e narrativas. Trata-se de um cinema comprometido com a criação de mundos sensíveis atravessados pelas experiências negras, afro-diaspóricas e afro-indígenas. Os corpos negros deixam de ocupar lugares estereotipados e passam a ser apresentados em sua complexidade estética, afetiva e espiritual.

Nesse processo, a imagem assume uma dimensão pedagógica. As visualidades produzidas por filmes de animação participam diretamente da construção de imaginários sociais sobre raça, beleza, pertencimento e humanidade. Stuart Hall (2016) afirma que os sistemas de representação não apenas refletem o mundo, mas participam ativamente da produção de significados. Assim, as imagens difundidas pelo audiovisual influenciam diretamente as formas como sujeitos negros percebem a si mesmos e são percebidos socialmente.

Historicamente, o cinema ocidental consolidou representações racistas da população negra, associando-a à violência, à marginalidade ou à subalternidade. Em muitos casos, personagens negras sequer estavam presentes nas narrativas infantis. Quando apareciam, eram representadas por meio de caricaturas racializadas, reforçando padrões eurocêntricos de beleza e humanidade.

Em 2007, Joel Zito Araújo destacou que a televisão brasileira praticamente não oferecia a crianças negras a possibilidade de se verem representadas positivamente, enquanto crianças brancas, sobretudo dentro do padrão euro-ariano, eram hiper-representadas em novelas, filmes e comerciais. Tal desigualdade produzia consequências diretas na autoestima e no senso de pertencimento de crianças negras, ao passo que reforçava a ideia de superioridade nas crianças brancas. Décadas depois, percebe-se certa ampliação na presença de personagens negras no audiovisual, em especial com a diversificação das plataformas de consumo cultural. Contudo, permanece o desafio de compreender como essas personagens são construídas, quais características narrativas lhes são atribuídas e, sobretudo, como tais construções são percebidas por crianças e adolescentes, em especial os das periferias. Além disso, torna-se fundamental indagar se a ampliação de representações negras no cinema e na animação tem, de fato, chegado a esse público e se há diferenças significativas quando a criação das obras parte de cineastas e roteiristas negros.

Bell Hooks (2019) argumenta que o olhar constitui um território político. O CNA surge justamente como uma possibilidade de criação de imagens dissidentes, capazes de romper com as estruturas visuais do racismo.

Além da representatividade racial, o CNA mobiliza uma pedagogia da imagem baseada na ancestralidade, na oralidade e na comunalidade. As narrativas se constroem a partir de memórias coletivas, saberes tradicionais e cosmopercepções africanas e afro-indígenas. Como afirmam Cruz et al. (2022), o Cinema Negro de Animação atua como ferramenta de fortalecimento identitário e pertencimento cultural em processos educativos afrocentrados.

As contribuições da pesquisadora e cineasta Dra Edileuza Penha de Souza foram decisivas para inserir a questão de gênero e raça na análise do cinema negro. Em seus textos sobre mulheres negras cineastas, observa-se que a perspectiva feminina é capaz de trazer novos olhares sobre o corpo negro, revelando-o em potência, afeto, beleza e comprometimento político.

A criação de personagens negras em contextos afetivos, familiares e ancestrais possibilita que crianças negras se reconheçam positivamente nas telas. Esse reconhecimento torna-se particularmente importante em sociedades marcadas pelo racismo estrutural, onde a infância negra frequentemente é atravessada por experiências de exclusão e violência simbólica.

Epistemologias da encruzilhada, ancestralidade e contracolonização

A pesquisa adota como referência teórico-metodológica a epistemologia da encruzilhada, desenvolvida por autoras(es) como Leda Maria Martins e Luiz Rufino. A encruzilhada é compreendida como operador conceitual que privilegia o encontro entre saberes, temporalidades e formas de percepção do mundo.

Ao contrário das epistemologias coloniais, baseadas na linearidade e na separação entre corpo e espírito, sujeito e natureza, a encruzilhada propõe uma lógica relacional, circular e plural. Local de conexão, dedicado à Exu nas tradições afro-brasileiras, trata-se de uma perspectiva que reconhece a coexistência de múltiplos conhecimentos e cosmologias.

Para Leda, há na encruzilhada uma natureza cinética (velocidade das reações químicas) e uma dimensão sígnica e complexa. “A cultura negra é uma cultura das encruzilhadas” (Martins, 2021, 52). Há um modo espiralar de habitar a encruzilhada, um operador semântico carregado de significância. Podemos pensar que esse operador semântico acontece também nas imagens do CNA. Como vertente material ela conta que “nos Reinados, os Congos atravessam as encruzilhadas com movimentos de avanços e recuos, (...) já os Moçambiques passam pelas encruzilhadas de costas (...)” (Martins, 2021, 54). A encruzilhada age como ponto nodal e atemporal (será Exu que inventará o tempo) dos ritos religiosos de origem Iorubá.

Nesse sentido, a ancestralidade não é entendida como retorno nostálgico ao passado, mas como presença viva que atravessa os corpos, os territórios e as práticas culturais. Conforme afirma o pesquisador Doutor e Taata de Nkissi Tássio Ferreira, ancestralidade constitui “o repertório filosófico que alinhava com muitos fios a cosmovisão de determinado povo” (Ferreira 2021, 112).

A noção de contracolonização, proposta por Nêgo Bispo (Antônio Bispo dos Santos), filósofo quilombola piauiense, também orienta esta pesquisa. Para o autor, os povos afro-indígenas produzem historicamente formas de resistência que desafiam as estruturas coloniais de poder, conhecimento e subjetivação. Assim, criar imagens negras e afrocentradas constitui também uma prática contracolonial. Em seu livro “A terra dá, a Terra quer” ele traz à tona o termo “cosmofobia” onde ele cita que para os racistas, o medo e aversão do cosmos e de tudo que advém dele é o que faz nós, pessoas negras e originárias, continuarmos sendo alvo na mira dos racistas presentes nas sociedades modernas. A cosmofobia é o processo ocidental de desconexão com a natureza e o cosmos. E quem aqui no Brasil defende, cuida e se enxerga como parte da natureza? Os povos originários, povos quilombolas… pois a cosmovisão de vida para nós está integrada ao natural, ao orgânico. Já a sociedade moderna tendo aversão a quem se enxerga como parte da natureza, gera violências e violências para com os negros e indígenas levando ao colonialismo e a exploração da natureza e de seus povos que mantêm uma relação de respeito e integração com o cosmos. Bispo sugere o processo de “Contracolonização” para um modo de vida que busca a reconexão com a natureza, o respeito à diversidade e a valorização dos saberes ancestrais na prática. O ato de levar para as escolas, filmes e curtas de animação que sejam criados e protagonizados por personagens negros pode se configurar como a contracolonização, uma vez que, tornando essa prática mais comum, debates acontecerão e mudarão os pensamentos dos estudantes em relação ao lugar do negro no mundo, sua verdadeira história anterior ao escravagismo e ao chicote colonial Brasileiro.

Nos filmes analisados, percebe-se uma cosmopercepção na qual natureza, espiritualidade e humanidade coexistem em relações de interdependência. Em Ewé de Òsányìn: o segredo das folhas, por exemplo, seres encantados, plantas, divindades e humanos compartilham o mesmo universo ontológico.

O caminho de confluência proposto por Nego Bispo, esse lugar vivo e resistente da mata e de seus habitantes, sem hierarquias, é abrigado na animação Ewé de Òsányìn também na continuidade e fio que escutamos nas suas canções negras. No capítulo “arquitetura e contracolonialismo” (2023), ele nos diz que vai andando pela mata marcando os lugares para construir sua casa, procura as sombras, os ventos, o caminho do sol. Em seguida, aponta a importância da noite, da lua e dos astros para a localização dessa casa. “Você demarca a sua casa na terra, mas demarca a sua casa também nos astros, para se posicionar dentro de uma relação cosmológica”(Santos, 2023, 41).

Segundo Peregrino e Souza (2022), o CNA permite apresentar “o mundo como é visto pelos povos tradicionais indígenas e afro-diaspóricos”, em que elementos da natureza, espíritos e matéria habitam o mundo em igualdade de condições.

Essa perspectiva rompe com a lógica ocidental, fundada na separação entre natureza e cultura. Para os povos tradicionais e também no CNA, a mata, os rios, os animais e os encantados não funcionam apenas como cenários, mas como sujeitos vivos que participam das narrativas.

A pesquisa articula análise teórica e pesquisa-ação. Metodologicamente, foi desenvolvida em duas etapas principais: 1) levantamento bibliográfico e mapeamento de filmes de animação africanos e afrodiaspóricos; 2) realização de mostras audiovisuais e rodas de conversa em escolas públicas.

Na primeira etapa, foram analisadas produções audiovisuais que abordam experiências negras e afro-diaspóricas, especialmente animações produzidas por realizadoras(es) negras(os). O levantamento de obras resultou na catalogação de dezenas de curtas-metragens de animação, entre produções brasileiras, africanas e da diáspora. Esse mapeamento revelou que, embora haja um crescimento da presença de personagens negras na animação, muitas produções ainda se encontram restritas a circuitos independentes e festivais, sem ampla circulação em plataformas comerciais. Essa constatação reforça a importância de projetos de difusão, como mostras em escolas, para garantir o acesso das crianças a essas narrativas.

A segunda etapa consistiu na realização de ações pedagógicas em escolas públicas de Ensino Médio do Sul da Bahia, envolvendo exibição de filmes e rodas de conversa com estudantes. As atividades buscaram compreender como crianças e adolescentes percebem personagens negras e representações afro-diaspóricas na animação. Paralelo ao levantamento bibliografico realizamos um levantamento, inicialmente, de filmes que possuíam personagens negras e que fossem voltados para o publico infantojuvenil. Em um segundo momento incluímos também outro recorte: as(os) autoras(es) e principalmente diretoras(es) fossem negros. Considerando esse levantamento, ea partir de uma curadoria realizada pela equipe de pesquisadoras, selecionamos os curtas Hair Love (Matthew Cherry, 2019) e Ewé de Òsányìn: o segredo das folhas (Peregrino, 2021) para serem exibidos e abrirem os debates. Com a perspectiva de que o ponto central da pesquisa reside na conexão entre filmes de animação negra e práticas educativas, iniciamos conversas com profissionais da educação pública com intuito de organizar os encontros com as(os) estudantes e entender como eles enxergam os personagens negros nas animações. Após a exibição dois curtas, foi conduzida uma roda de conversa, baseada nas seguintes perguntas:

  1. Depois de assistir aos dois curtas, qual cena ou momento marcou você?
  2. Em Hair Love, a história fala sobre cabelo afro. Como você se sente em relação ao seu cabelo? Já viveu ou presenciou situações de preconceito relacionadas a isso?
  3. Em Ewé de Òsányìn vimos elementos da religiosidade afro-brasileira. Como você acha que a escola pode contribuir para valorizar e respeitar diferentes culturas e religiões?
  4. Você lembra de outros desenhos, séries ou filmes que tenham personagens negros como protagonistas? Como esses personagens são tratados?
  5. O que você achou das qualidades e características dos personagens dos curtas? Consegue se ver ou se identificar com eles?
  6. Na sua opinião, qual o papel da escola na valorização da cultura negra no dia a dia, e não apenas em datas específicas como 20 de novembro?

A metodologia da pesquisa-ação mostrou-se particularmente importante por permitir uma relação horizontal entre pesquisa acadêmica e experiência comunitária. As rodas de conversa foram compreendidas como espaços de escuta, troca e construção coletiva do conhecimento.

Além das falas dos estudantes, foram observadas reações emocionais, processos de identificação e discussões espontâneas surgidas durante as exibições. As análises também consideraram aspectos estéticos dos filmes, como figurino, construção de cenários, textura dos materiais, corporeidade das personagens e utilização de símbolos ancestrais.

Experiências pedagógicas e construção de imaginários

As discussões realizadas após a exibição de Hair Love evidenciaram o impacto da representação positiva do cabelo crespo na autoestima das estudantes negras. Muitas relataram experiências de preconceito racial vividas no ambiente escolar, especialmente relacionadas aos seus cabelos.

O filme apresenta a relação afetiva entre um pai negro e sua filha durante o processo de pentear o cabelo da criança. A narrativa desloca o cabelo crespo do lugar do “problema” para o campo do afeto, do cuidado e da beleza.

Durante as rodas de conversa, diversas estudantes negras compartilharam situações em que sofreram comentários racistas sobre seus cabelos. Algumas afirmaram já ter desejado alisar os fios para serem aceitas socialmente. Outras relataram vergonha de utilizar penteados afro em espaços escolares.

Essas falas revelam como o racismo atua também na dimensão estética e simbólica. Nilma Lino Gomes (2006) argumenta que o cabelo negro constitui importante marcador identitário nas experiências da população negra brasileira, tornando-se frequentemente alvo de discriminação.

Ao mesmo tempo, percebeu-se que filmes como Hair Love produzem deslocamentos importantes nas formas de percepção das estudantes sobre si mesmas. A identificação com personagens negras fortalece processos de autoaceitação e pertencimento.

Já o curta Ewé de Òsányìn: o segredo das folhas apresentou outro eixo importante das discussões: o racismo religioso. A narrativa acompanha uma criança discriminada na escola que encontra acolhimento em um universo atravessado pelos encantados, pela mata e pelos saberes ancestrais.

Notamos uma forte percepção da escola ainda como um espaço da não-diversidade. Tal afirmação apareceu reiteradamente nas falas dos estudantes, especialmente daqueles pertencentes às religiões de matriz africana.

Muitos relataram medo de mencionar sua religião na escola devido às experiências de preconceito. Outros afirmaram já terem ouvido colegas associarem religiões afro-brasileiras ao “mal” ou ao “demônio”.

Ao apresentar Òrìṣàs, encantados e cosmologias afro-indígenas de maneira sensível e poética, o filme contribui para desconstruir imaginários racistas historicamente disseminados sobre as religiões afro-brasileiras.

Além disso, a animação propõe uma pedagogia do encantamento. Os elementos naturais aparecem como sujeitos vivos, e a floresta torna-se território de aprendizagem, acolhimento e transformação. Essa perspectiva aproxima-se das reflexões de Hampâté Bâ (2010), para quem as tradições africanas articulam espiritualidade, educação, arte e vida cotidiana em uma mesma totalidade.

Outro aspecto importante observado na pesquisa refere-se à construção estética das personagens e dos espaços. Nos filmes analisados, figurinos, cores, texturas e cenários operam como dispositivos de ancestralidade.

Os cenários também possuem forte dimensão política. A Caatinga e o Rio São Francisco deixam de ocupar o lugar de paisagens exóticas e passam a ser apresentados como territórios vivos de ancestralidade e resistência.

A materialidade do stop motion intensifica ainda mais essa dimensão sensível das imagens. Bonecos, tecidos, folhas e objetos artesanais produzem visualidades táteis, aproximando o cinema das práticas manuais e comunitárias presentes nas culturas afro-diaspóricas.

Os resultados da pesquisa indicam que o Cinema Negro de Animação possui grande potencial como ferramenta pedagógica antirracista. As mostras audiovisuais e rodas de conversa possibilitaram reflexões importantes sobre identidade negra, religiosidade, pertencimento e racismo estrutural.

Ao criar personagens negras complexos e afetivos, o CNA contribui para ampliar as possibilidades de representação disponíveis para crianças e adolescentes negras(os). Isso se torna particularmente relevante em contextos escolares ainda marcados por práticas racistas e eurocentradas.

A pesquisa também demonstra que o CNA contribui para a implementação das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, oferecendo materiais audiovisuais capazes de abordar culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas de maneira crítica e sensível.

Além da exibição de filmes, a própria realização de animações constitui uma prática educativa potente. Como afirmam Cruz et al. (2022), oficinas de animação possibilitam que estudantes negras(os) contem suas próprias histórias e se reconheçam como produtoras(es) de cultura.

Nesse sentido, o CNA pode ser compreendido como tecnologia contemporânea de griotagem, articulando oralidade, imagem e memória ancestral. As animações tornam-se espaços de transmissão de saberes e elaboração coletiva de imaginários negros.

Seguir o caminho

O Cinema Negro de Animação vem se consolidando como importante campo estético, político e pedagógico no contexto afro-diaspórico contemporâneo. Ao produzir imagens comprometidas com a valorização das experiências negras, essas animações contribuem para a retomada e fortalecimento de imaginários afrodiaspóricos.

Iniciamos com a compreensão de que o cinema, enquanto linguagem artística e cultural, não apenas reflete representações sociais, mas também participa ativamente na formação de imaginários e subjetividades. Nesse sentido, o Cinema Negro de Animação se apresenta como um campo estratégico para a construção de narrativas que reposicionam a imagem do corpo negro, seus figurinos, espaços e formas de existência, enfrentando as distorções provocadas pela hegemonia de representações brancas e eurocentradas no audiovisual.

A pesquisa demonstrou que as imagens possuem papel fundamental nos processos de formação subjetiva de crianças e adolescentes. Representações positivas de personagens negras fortalecem identidades, ampliam repertórios simbólicos e contribuem para práticas educativas antirracistas.

As experiências desenvolvidas pelos projetos Àwòrán evidenciam que o CNA pode atuar como ferramenta pedagógica potente na educação formal e não formal. As mostras audiovisuais e rodas de conversa possibilitaram reflexões críticas sobre estética, racismo religioso, ancestralidade e pertencimento.

Ao adotar a epistemologia da encruzilhada como perspectiva metodológica, o estudo buscou construir uma pesquisa comprometida com formas plurais de conhecimento, articulando cinema, ancestralidade, oralidade e educação.

O Cinema Negro de Animação constitui não apenas uma linguagem artística, mas uma prática de resistência, memória e contracolonização. Suas imagens produzem fissuras nos imaginários coloniais e abrem caminhos para a construção de pedagogias negras da imagem.

Bibliografia

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Sodré, Muniz. 2002. O terreiro e a cidade: a forma social negro-brasileira. Rio de Janeiro: Imago.

Filmografia

Hair Love. 2019. De Matthew Cherry. Estados Unidos.

Ewé de Òsányìn: o segredo das folhas. 2021. De Pâmela Peregrino. Brasil.