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The Reconfiguration of the Fieldwork: From Visual Anthropology to Multimodality

A Reconfiguração do Trabalho de Campo: Da Antropologia Visual à Multimodalidade

José da Silva Ribeiro

AO NORTE – Portugal
EDUMATEC, UFPE – Brasil

Abstract

Multimodal anthropology is defined as a subfield of sociocultural anthropology that encompasses research and knowledge production across multiple media platforms, both traditional and new. This approach encourages anthropologists to reconsider how they conduct their research, paying close attention to the role that digital devices and media technologies play in the lives of their interlocutors and how these tools redefine what it means to “do fieldwork.” Samuel Collins, Matthew Durington, and Harjant Gill, in their influential essay “Multimodality: An Invitation,” argue that multimodal anthropology does not seek to supplant visual anthropology, but rather to expand its boundaries to incorporate 21st-century technologies such as mobile networks, social media, virtual reality, and geographic mapping. The distinction between classical visual anthropology and multimodality lies in the nature of mediation and the multiplicity of sensory channels involved in the ethnographic process. While visual anthropology focused predominantly on the image (photography and film) as a record or object of study, multimodality recognizes that smartphones, social media, and digital software are transforming research dynamics in unprecedented ways.

Keywords: Visual anthropology, Modal anthropology, Multimodal anthropology, Fieldwork, Ethnographic process.

Introdução

Antropologia... uma forma de conhecimento, sempre mutante, urgentemente necessário, no mundo de hoje.
M. Fischer, 2009

A antropologia é uma disciplina que tem sentido mudanças significativas ao longo da sua história. Salientemos, entre outras, as alterações no trabalho de campo, as relações com os interlocutores / colaboradores, as questões epistemológicas, éticas, estéticas e políticas e a introdução da imagem, do som e das tecnologias digitais no trabalho de campo e na apresentação dos resultados. De salientar também o reconhecimento da antropologia visual pelas associações de antropólogos – American Anthropological Association em 2001 e 2015 1, retirando- a de uma certa marginalidade em relação à antropologia. É, porém, nas últimas décadas, que a antropologia tem atravessado um processo de transformação profunda que desafia não apenas os seus métodos, mas também os seus fundamentos epistemológicos. A emergência da antropologia multimodal inscreve-se neste movimento mais amplo de reconfiguração, no qual as fronteiras entre media, práticas de pesquisa e formas de conhecimento se tornam progressivamente mais porosas.

Tradicionalmente, a antropologia visual constituiu-se como um subcampo dedicado à análise e produção de imagens — fotografia e cinema — enquanto formas privilegiadas de representação e investigação do social e do cultural. No entanto, o desenvolvimento das tecnologias digitais, a ubiquidade dos dispositivos móveis e a crescente centralidade das plataformas mediáticas na vida quotidiana colocaram em questão a primazia do visual como modo dominante de mediação. É neste contexto que autores como Samuel Collins, Matthew Durington e Harjant Gill (2017 e 2024) propõem a noção de antropologia multimodal. Longe de representar uma rutura total com a tradição da antropologia visual, esta abordagem propõe antes a sua expansão, incorporando múltiplos modos de produção e disseminação do conhecimento.

Este artigo propõe analisar esta transição como uma reconfiguração do próprio conceito de “campo”, articulando contribuições da antropologia, do cinema e das teorias da experiência.

1 A antropologia visual: imagem, relação e conhecimento

A antropologia visual emergiu como um campo que procurava explorar o potencial das imagens como ferramentas de investigação. Desde as primeiras expedições que o registo de imagem e som estiveram presentes nas missões científicas para documentar a presença dos antropólogos, os povos e culturas longínquas e exóticas e para enriquecer as coleções dos museus e arquivos. As imagens animadas acompanharam este percurso e este objetivo de documentar e o cinema deu origem a filmes realizados por cineastas e exploradores que inspiraram os primeiros filmes etnográficos. Como referem Ella Shoat e Robert Stam “tendências visualizantes do discurso antropológico ocidental abriram o caminho para a representação cinematográfica de outros territórios e culturas... O cinema neste sentido prolonga o projeto museológico de reunir na metrópole objetos zoológicos, botânicos, etnográficos e arqueológicos tridimensionais”. Também o registo de som trouxe mudanças profundas na pesquisa em antropologia com utilização do gravador de som a partir dos anos de 1950 e na década seguinte com a introdução do cinema direto e do som síncrono.

O etnólogo durante muito tempo foi o único habilitado a tratar do outro condenado a ficar sem voz. Pouco a pouco, contudo, o objeto do discurso tornou-se sujeito e exprimiu-se: é preciso então constatar a intervenção decisiva da imagem diretamente captada e transmitida [...] e portanto a totalidade de uma expressão em que se dizem ao mesmo tempo o gesto e a palavra, o movimento do corpo e o do discurso, o tempo e o espaço das relações sociais. Tornava-se cada vez mais difícil deixar falar uns enunciando em seu nome a ‘verdade’ dos outros” (Piault, 1982, p. 7).

O trabalho de Jean Rouch é paradigmático neste sentido, ao conceber o cinema não apenas como meio de registo, mas como dispositivo de relação e coprodução de conhecimento. Rouch introduz uma dimensão performativa e participativa que antecipa, em muitos aspetos, preocupações contemporâneas. O seu cinema não pretende apenas representar o outro, mas envolver-se num processo de criação partilhada - “consideramos [Jean Rouch] um guia espiritual para a antropologia multimodal” (Collins e Durington, 2024, p.148)

No entanto, apesar desta abertura, a antropologia visual manteve uma forte ancoragem na imagem enquanto suporte privilegiado, o que, em certa medida, limitava a exploração de outras dimensões sensoriais e mediáticas. Também a dominância do autor em relação à dimensão colaborativa ou partilhada permanece em muitos filmes, mais utilizados para promoções académicas ou artística do autor do que de dádiva (dar, receber e retribuir) às pessoas e às comunidades e coletivos sociais.

Também no trabalho de campo se realizaram mudanças profundas. Não apenas na denominação dos interlocutores no trabalho de campo – informadores, informantes, colaboradores, mas o próprio trabalho de campo foi objeto de inúmeras críticas. A crítica inicial, frequentemente presente em memórias do trabalho de campo, não abordou cabalmente os elementos de uma crítica metodológica, mas antes o seu tom celebratório, o género confessional acerca da sua realização, as atribulações e falhas dessa atividade e a apresentação do antropólogo como herói romântico e autor solitário - a figura conradesca (Coração das trevas) do investigador que, isolado, extrai conhecimento da comunidade como se fosse uma matéria-prima. A segunda crítica consistiu na insensibilidade ou incompetência da antropologia para se ocupar de questões relacionadas com o contexto histórico e a economia política, relevantes não só para os sujeitos e comunidades estudados, mas também para os processos de investigação, nomeadamente a relação da disciplina com o colonialismo e mais recentemente com o neocolonialismo. A partir dos anos de 1970 os antropólogos desenvolveram um refinamento em relação aos contextos históricos, económicos e políticos do trabalho de campo. A quarta crítica ao trabalho decorre da dificuldade de a antropologia se adaptar à situação de “retorno a casa”, isto é, situações novas em que as populações estudadas deixaram de ser povos longínquos, pobres, rurais ou montanheses, populações urbanas nas margens, a tradição. Incapacidade ou dificuldade de se adaptar às novas situações e a novas de relação de poder entre o antropólogo e as pessoas estudadas (Ribeiro, 2003). Finalmente os anos da pandemia do Covid 19 revelaram outras fragilidades do trabalho de campo digital.

A “novidade” aqui, se é que podemos chamá-la assim, reside na incapacidade dos antropólogos de se engajarem com as comunidades em qualquer outra modalidade que não a digital – um método que expõe de forma gritante as profundas desigualdades da antropologia. E, paradoxalmente, ao facilitar algumas formas de trabalho de campo, a transição para o trabalho de campo digital desde a pandemia resultou em ainda mais marginalização e invisibilidade para pessoas em muitas comunidades onde os antropólogos atuaram. Collins e Durington, 2024, p. 39.

Nas práticas desenvolvidas durante a pandemia do Covid 19, estudantes e investigadores foram encontrando soluções tendo em conta as desigualdades na antropologia e nas formas como o trabalho de campo é cúmplice dessas desigualdades. Não cabe neste artigo nomear soluções encontradas pelos estudantes na realização das pesquisas realizadas, mas o eco que reverberou nas bancas / júris examinadores e em Encontros, Conferência e Congressos.

2. A emergência da multimodalidade

A antropologia multimodal não emerge como um mero aditivo tecnológico à disciplina, mas como uma reconfiguração ontológica e política da presença etnográfica. Ela apresenta-se como uma resposta crítica à hegemonia do texto e aos regimes dominantes de linhagem colonial, propondo uma “alquimia” de meios - a arte de transformar informações e comunicações, combinando diferentes plataformas e conteúdos para criar novas realidades e significados, influenciando o pensamento e a ação, onde o conhecimento é coproduzido num estado de devir constante.

As questões centrais e as inovações que esta virada imprime na prática antropológica podem ser articuladas nos seguintes eixos:

  1. O desmantelamento do discurso colonial e a hegemonia do autor. A antropologia multimodal confronta diretamente o passado extrativista da disciplina, implodindo a figura do “antropólogo solitário” — o herói conradiano que extraía saber das comunidades para o cânone académico: Substitui-se a autoridade do investigador pela ideia de uma comunidade colaborativa. O antropólogo deixa de ser o “especialista supremo” para assumir a função de facilitador devolvendo a agência narrativa aos interlocutores. Enquanto o filme etnográfico e a antropologia visual se centraram, por vezes, na visão soberana do cineasta, a multimodalidade exige que a produção e a disseminação sejam atos partilhados, onde o feedback da comunidade molda o “produto” final, tornando a investigação irreconhecível face ao modelo liberal do século XX.
  2. O digital é o campo de forças onde a antropologia contemporânea é performada através da compreensão da cultura como um processo dinâmico, vivido e encenado, indo além da simples descrição estrutural, mas a sua relevância é atravessada por uma “multimodalidade ambivalente”. A antropologia multimodal alerta para o perigo do determinismo tecnológico e para a ilusão de que as ferramentas digitais são inerentemente democráticas. O fosso digital e as economias extrativas de dados transformam a presença comunitária em mercadoria para corporações, exigindo uma vigilância crítica constante. Tecnologias como o Smartphone deixam de ser apenas uma “ferramenta divertida” ou o “mal do século” para ser reconhecido como um objeto com vida social e biografia, atuando simultaneamente como campo de pesquisa e assistente de campo.
  3. O design funde-se com a antropologia para oferecer ferramentas de futuridade que a antropologia anteriormente carecia: Tim Ingold propõe o design não como a projeção de objetos finais, mas como um processo de “correspondência” e de vida, onde o fazer é um ato de habitar o mundo com os outros. Corsín Jiménez introduz a categoria do protótipo em “estado beta permanente”, definindo o objeto etnográfico como algo aberto à renegociação contínua, recusando o encerramento mercantil do saber. Elizabeth Chin advoga por uma etnografia especulativa e pelo “participant making”, utilizando o design para imaginar mundos “de outra forma”, libertos de limitações coloniais e raciais. A antropologia multimodal remete ainda para “Wireframing” (esboços, simulações... – como na realização de um filme a linha de tempo) como método técnico apropriado permitindo que comunidades negoceiem o fluxo da sua própria representação técnica sem necessidade de perícia em código, linguagens ou processos.
  4. A inovação multimodal reside na transição para uma prática eticamente correta e epistemologicamente sustentável que recusa a neutralidade científica. O investigador não deve chegar ao campo de mãos vazias; ele tem a obrigação de mobilizar recursos reais que permitam à comunidade realizar o trabalho que ela já faria se tivesse os meios necessários. Contra o “teatro de design participativo” das instituições — que simula inclusão para legitimar agendas de elites — a antropologia multimodal mergulha na especificidade das experiências racializadas e de classe para confrontar as feridas da despossessão.
  5. Podemos ainda sublinhar a dimensões do sensível – dimensões sensoriais e corporais no desenvolvimento da antropologia modal (Laplantine, 2015) e multimodal.

Laplantine define o cinema como constituído por “sensações em constante transformação” (p. 116). Não trata o filme como um objeto, mas sim como uma “forma de conhecer”. E uma forma de conhecer que transcende a linguagem (o meio padrão da filosofia) devido a maneira como lida com sensações auditivas e visuais — isto é, com “sons e imagens em movimento. […] e um convite, uma oportunidade para pensar de outra forma, ou seja, para pensar sensorialmente. O cinema não procura afirmar “o que é o caso”; mostra. O cinema é a arte de mostrar as coisas de forma que as palavras não conseguem, daí o seu apelo para Laplantine e para um número crescente de antropólogos de língua inglesa sintonizados com os sentidos, como Lucien Castaing- Taylor (1994), Anna Grimshaw (2001), David MacDougall (2005) e Sarah Pink (2006). Howes em Laplantine, 2015, p. VII e VIII

A antropologia multimodal não busca apenas documentar a ruína, mas atuar como um gesto de esperança, transformando o ato de investigar num compromisso inegociável com a justiça social e com a reinvenção da vida pela esperança e pelas emoções.

Dois antropólogos da Universidade da Califórnia, Los Angeles, Akhil Gupta e Jessie Stoolman em Decolonizing US anthropology e na Reunião Anual da Associação Americana de Antropologia2 de 2021, apresentaram algumas propostas para repensar o histórico da antropologia apontando mudanças necessárias.

Reinterpretação do passado da disciplina e a inclusão no cânone daqueles estudiosos não brancos que foram historicamente negligenciados, não estamos a advogar um abandono total do cânone existente, nem a rejeição da obra de figuras fundadoras da disciplina. Em vez disso, estamos a pedir que os textos canónicos sejam colocados em diálogo com os dos estudiosos das minorias cujo trabalho é raramente reconhecido, com a história do período e com a história das relações entre os etnógrafos e os seus sujeitos (interlocutores, tradutores, assistentes e outros). Além disso, precisamos de formular um novo conjunto de questões a estes textos canónicos. Isto exige uma postura de releitura crítica e de inserção num novo contexto académico e histórico (Gupta e Stoolman.2022, p. 789)

Referem ainda que “o antirracismo e o anticolonialismo na disciplina devem avançar a ambos os níveis: repensando as nossas questões e mudando as práticas disciplinares” questionando os métodos de pesquisa, as relações com as pessoas e as comunidades que estudamos, os métodos de ensino, a descolonização da disciplina, dos departamentos, das práticas e apelando para “uma análise profunda da nossa própria cultura disciplinar, prestando atenção às práticas quotidianas de “normatização branca” que servem para alienar e “alterizar” os alunos e professores não brancos” (Gupta e Stoolman.2022: 789).

Também o feminismo apresenta uma dimensão descolonizadora / decolonial, mas também a necessidade de novas formas capazes de suprir as limitações dos meios de publicação dos artigos académicos.

Os nossos artigos académicos não nos pareceram suficientemente abrangentes para transmitir as suas dimensões sensoriais e corporais, nem para serem um meio adequado para refletir sobre os aspetos colaborativos do nosso trabalho de campo. Neste ensaio, proponho uma maneira multimodal de transmitir as paisagens urbanas mutáveis da memória, uma maneira imersa nas conversas e possibilidades de diversos media e métodos, incluindo mapeamento, vídeo, poesia, fotografia, artefactos materiais e trabalho de campo colaborativo. A multimodalidade aqui deriva da prática feminista e decolonial que procura desestabilizar a temporalidade linear e os protocolos da argumentação científica (ver Gomez-Barris, 2017; McKittrick, 2021) através da prática artística e curatorial. A multimodalidade inspira-se também nas experiências antropológicas com a escrita. (Gupta 2021, p. 282)

A antropologia multimodal propõe-se estes objetivos, estas práticas e estes questionamentos pelo método “Como os métodos que usamos possibilitam ou restringem a descolonização? Que tipos de métodos, práticas colaborativas, etc., podem ser necessários para moldar a antropologia em uma ciência descolonizadora?” (Gupta e Stoolman 2022, p.786) sabendo que a multimodalidade não é panaceia para todos os problemas da antropologia e para as profundas desigualdades que configuram a prática etnográfica. Trata-se fundamentalmente de questões éticas e políticas de colaboração e reconhecimentos dos interlocutores no trabalho de campo.

Para além do método, uma segunda proposta da antropologia multimodal aponta para o desenvolvimento da comunidade colaborativa em vez do antropólogo como autor solitário questionando os direitos sobre as obras académicas – destinadas ao curriculum e promoções académicos do antropólogo, aos arquivos da universidade e cânones da antropologia ou às pessoas com quem estudamos e orientados para a resolução de seus problemas e inquietações.

Além destas questões a multimodalidade, como referem Collins, Durington e Gill em Multimodality: An Invitation (2017) “descreve o percurso dos media antropológicos na sociedade contemporânea”: a diversidade de investigações antropológicas em múltiplos meios, espaços e plataformas incluindo a fotografia, cinema, media sociais, aplicativos, exposições, curadorias, design em antropologia, práticas de campo. A antropologia multimodal reconhece a centralidade da mediação e da produção mediática no quotidiano tanto dos antropólogos como dos seus interlocutores. Não como um produto de autor, mas como um processo que envolve os interesses dos interlocutores, produções e processos que possam ser relevantes para os interlocutores e/ para a comunidade.

Critério Multimédia (O Produto) Multimodalidade (O Processo)
Foco O resultado final (filme, áudio, texto). A interação e o envolvimento durante a pesquisa.
Autoridade Centrada no “autor” ou no “especialista”. Partilhada e colaborativa; desafia o cânone (padrão).
Resultado Um objeto estático ou coleção de ficheiros. Resultados múltiplos que servem à comunidade.
Ética Frequentemente extrativa (recolha de dados). Baseada na reciprocidade e na justiça social.

No que se refere às tecnologias digitais na pesquisa em antropologia, esta exige a responsabilidade ética em relação às desigualdades - que a antropologia não se refugie em celebrações ingénuas da democratização digital ou no ceticismo profundo em relação à ideia de que a tecnologia é inerentemente libertadora ou democrática, mas numa ação criativa que procura abrir espaços de esperança e de possibilidade especulativa, incentivando o antropólogo a “hackear” os avanços da tecnociência para inventar novos caminhos de representação partilhada.

Uma abordagem multimodal estende-se não só à investigação que os antropólogos realizam antes da produção mediática, mas também ao legado dos media antropologicamente concebidos. Implica as relações entre antropólogos e públicos ligados em rede, formados pela disseminação, bem como as discussões e debates que os media geram. A multimodalidade insiste que observemos a prática mediática na nossa investigação e produção académica, entre outras e, simultaneamente, prestemos atenção à forma como o nosso trabalho é frequentemente mediado por instituições repletas de dilemas éticos e negociações contínuas. Também nos convida a explorar como as formas de media contemporâneas, os produtores e as comunidades estão inseridos em sistemas de acumulação de capital altamente desiguais.

Assim a multimodalidade implica: a integração de diferentes media, a experimentação com formas híbridas, a abertura a novos públicos. Mais do que uma técnica, trata-se de uma orientação epistemológica que reconhece a complexidade das mediações contemporâneas.

No processo de produção antropológica mediática, os antropólogos tecem uma complexa teia de vestígios mediáticos: desde as publicações nas redes sociais até às relações construídas com as comunidades; passando por gravações áudio e fotografias tiradas à pressa para nos ajudar a recordar detalhes específicos; até primeiros cortes e edições preliminares de filmes; e diversas trocas e acordos de reciprocidade, em que os investigadores de campo produzem gravações, fotografias e filmes a pedido da comunidade. Confronta-se também com outras publicações mediáticas. Tudo o que encontramos no trabalho de campo e nas produções mediáticas são potencialmente significativos e ilustrativos das práticas sociais, dos seus contextos, da posicionalidade do investigador e revela as complexidades de como os nossos interlocutores interagem com os media, bem como os processos através dos quais conduzimos nossas pesquisas e chegamos a entendimentos específicos.

As atividades dos investigadores e o trabalho de campo está hoje, sob o olhar atento de uma multiplicidade de instituições e de atores sociais: os atores sociais, suas redes locais, redes e plataformas digitais; as organizações não governamentais e associações internacionais (ecológicas, dos direitos do homem, de saúde, etc.); os jornalistas e os meios de comunicação social; os poderes públicos locais e nacionais; outros investigadores da mesma área ou de outra área de investigação e as suas associações profissionais (Associação de Antropólogos, de Sociólogos, etc., dos países onde decorre a investigação e dos países dos investigadores); Universidades, Departamentos e Centros de Estudos no âmbito dos quais decorre a investigação, etc. A investigação, o trabalho de campo e as produções mediáticas, deixam marcas indeléveis. Nelas pessoas, locais, tempos, instituições que, por muito que sejam mascaradas com mudanças de nomes e outros artifícios frequentemente utilizados, deixam sempre traços que os tornam identificáveis.

Os documentos produzidos no trabalho de campo – notas, diário de campo, fotografias, gravações áudio e vídeo – entre outros materiais que anteriormente não entravam no relatório final da nossa investigação são relegados para os cadernos de notas, para arquivos pessoais ou institucionais visuais e sonoros e aí permaneciam como “arquivo morto” até que poderem ser retomados como objetos de memória suscetíveis de novas pesquisas numa perspetiva reflexiva e mesmo autobiográfica ou autoetnográfica.

Atualmente nesta era de proliferação acelerada dos media, as formas digitais disponibilizadas em redes e plataformas tornam-se mais visíveis e, paradoxalmente, numa altura em que podem parecer efémeras, elas permanecem documentando processo e produções. O rasto de media partilhados e colaborativos que a nossa investigação e prática produzem continua como uma série de vestígios que prenunciam o engajamento antropológico, um arquivo em rede que se entrelaça em torno dos produtos finais da etnografia. A antropologia multimodal redireciona a nossa atenção para estes encontros pré e pós-campo, compelindo-nos a seguir estas redes complexas através das diversas colaborações e reciprocidades que compõem a antropologia empenhada, a posicionalidade do investigador e a dinâmica de relações com os interlocutores. Embora algumas destas (para)produções possam ser mais quantificáveis do que outras em termos do valor que as nossas instituições lhes atribuem, ainda se ligam aos nossos interlocutores de formas significativas que exigem a nossa atenção enquanto antropólogos empenhados.

3. Projetos e experiências multimodais

A antropologia multimodal pode ter diversas origens e assumir muitas formas. Esta pluralidade de formas de fazer antropologia inclui diferentes modos de conhecer e aprender em conjunto, modos de colaboração e formas dinâmicas de coparticipação que rompem com as compreensões convencionais da subjetividade individual, da autoria e da autoridade.

Referimos acima a prática de Jean Rouch e a antropologia partilhada como referência inspiradora de uma antropologia multimodal. Sara Pink e MacDougall são autores reconhecidos da antropologia visual, da antropologia digital e do filme etnográfico que constatam que estas constituem “forma diferente de conhecer”, mas também reconhecem a necessidade de (re)contextualizar as práticas e de repensar sua identidade em termos de sua relação com outras áreas da teoria e metodologia antropológicas. A antropologia multimodal apresenta-se como integradora destas práticas e de as expandir explorando novas epistemologias, novas possibilidades colaborativas, reconfigurações do trabalho de campo e de renovadas preocupações éticas e políticas.

Entre os múltiplos projetos que encontramos em publicações de referência – American Anthropologist (2020), The Routledge International Handbook of Ethnographic Film and Video (2020) Multimodality & Society (2022) e publicações autorais, refiro dois que chamaram a atenção pela relevância e sustentabilidade das práticas desenvolvidas. O terceiro projeto, apenas iniciado, está a ser realizado forma colaborativa entre a Associação do Maracatu de Baque Solto – Onça Dourada e os antropólogos Renato Athias e José da Siva Ribeiro. Sobre este último projeto interrogamo-nos sobre como a abordagem multimodal reconfigura a passagem da antropologia visual, em que trabalhamos durante décadas, para a antropologia multimodal.

Um dos projetos relevantes é o da professora de Humanidades na Universidade de Princeton Tina M. Campt. Campt desenvolve um método “que abre as possibilidades interpretativas radicais de imagens e arquivos estatais que muitas vezes tendemos a negligenciar, ao explorar a capacidade paradoxal das fotos de identidade de romper com o olhar soberano dos regimes que as criaram, recusando os próprios termos de sujeição fotográfica que foram concebidos para produzir”. Neste processo que denomina de contra intuição considera a necessidade de “observar” em vez de simplesmente “olhar” para fotografias, a escolha de “escutar” em vez de simplesmente “olhar” para imagens é uma decisão consciente de desafiar a equação da visão com o conhecimento, envolvendo-se com a fotografia através de um registo sensorial que é crucial para as formações culturais do Atlântico Negro: o som. Esta prática / experiência foi desenvolvida na obra Listening to images (2017) a partir das fotografias Gulu Real Art Studio no Uganda, a coleção de Ernest Dyche em Birmingham e as fotografias de rua de Janet Mendelsohn Tina M. Campt propõe assim uma metodologia inovadora de “escutar” fotografias de identificação da diáspora africana para revelar narrativas de recusa e subjetividade. A autora analisa imagens capturadas pelo Estado ou por impérios coloniais, como passaportes e fotos de estúdio, argumentando que estes registos banais emitem frequências sónicas e hápticas que transcendem a simples vigilância. Através de exemplos como os recortes de fotografias do Gulu Real Art Studio no Uganda e a coleção de Ernest Dyche em Birmingham, explora como indivíduos despossuídos utilizam o quotidiano para ensaiar uma futuridade negra. Campt desafia a primazia da visão sobre o conhecimento, sugerindo que o “som sentido” nestas imagens silenciosas manifesta formas de resistência e dignidade. Em Listening to images (2017) reconfigura o arquivo visual como um espaço de rutura e transformação onde o silêncio funciona como uma modalidade expressiva de existência.

Tina Campt refere também que o toque (háptico) influencia a análise fotográfica ao transformar a observação em um envolvimento incorporado, que rompe com a distância tradicional entre o observador e a imagem. O “háptico” não se refere apenas ao toque físico, mas a múltiplas formas de contacto — visual, físico, psíquico e sónico — que caracterizam o encontro com a fotografia. Segundo a autora o toque influencia a análise das por múltiplas formas: 1) Superação da Distância Visual. O modo háptico permite aceder às imagens através de um registo sensorial que vai além da visão. Enquanto o “olhar” pode por vezes apagar ou ignorar os sujeitos, o toque implica ser afetado e movido pela fotografia, criando uma ligação profunda com o “evento da foto”. 2) O Som como Toque. Campt propõe que o som e a frequência são formas profundamente hápticas de contacto sensorial. Como o som é constituído por vibrações que atingem o corpo, ouvir uma imagem (captar as suas frequências) é, na verdade, uma forma de senti-la e ser tocado por ela, mesmo que não haja som audível. 3) Temporalidades Hápticas. A análise háptica permite identificar diferentes camadas de tempo na fotografia. Isto inclui o momento da captura (o confronto do sujeito com a câmara), a produção material da imagem e o encontro arquivístico presente, onde o investigador interage com o objeto físico. 3) Materialidade do Arquivo: O toque físico — o peso de um álbum, a textura do papel, o cheiro das páginas — informa a análise sobre a natureza do objeto e a sua história. Por exemplo, ao passar as mãos sobre as fotos de um álbum de prisioneiros, Campt consegue perceber diferenças de iluminação e texturas que revelam sessões fotográficas distintas, detalhes que o simples olhar ou os dados estatísticos poderiam ignorar.

4) Resistência à Desumanização: No contexto de arquivos burocráticos (como fotos de identificação ou de criminosos), o encontro háptico funciona como um método para resistir ao efeito de silenciamento dos dados estatísticos. Ao interagir fisicamente com os volumes e os registos escritos, o investigador consegue devolver presença e afeto a sujeitos que o estado tentou reduzir a meros números. O toque permite que a análise fotográfica capte frequências de possibilidade e verdades indizíveis, humanizando sujeitos que foram historicamente descartados ou silenciados.

Em fotos de passaporte, Campt analisa fotografias de passaporte encontradas na coleção de Ernest Dyche, retratando migrantes afro-caribenhos em Birmingham após a Segunda Guerra Mundial. A autora não lê estas imagens apenas como documentos de regulação estatal, mas escuta a sua frequência de transfiguração. Ela justapõe estas fotos formais com as fotografias de Janet Mendelsohn sobre a vida de rua e o trabalho sexual no mesmo bairro (Balsall Heath). Ao “ouvir” o cuidado com os fatos e gravatas, a autora identifica uma prática quotidiana de recusa. Estes sujeitos não são apenas “objetos governamentais”; eles utilizam a câmara para performar uma dignidade e uma reivindicação de pertença que desafia a exclusão imperial, vivendo uma futuridade utópica no presente. Em Posturas marcantes em uma gramática tensa: estase e a frequência da recusa nega, capítulo 2 de Listening to images (2017), Campt foca-se em fotografias etnográficas da Missão Mariannhill (século XIX) e na sua reapropriação por Santu Mofokeng no projeto The Black Photo Album introduzindo o conceito de estase 3 — não como imobilidade, mas como um equilíbrio de forças em tensão. Ela analisa a tensão muscular dos sujeitos (mandíbulas cerradas, olhares fixos) como uma manifestação física de resistência à captura colonial. Assim, através desta escuta das “frequências infra sónicas”, a autora vê as imagens como um local de reassemblagem/remontagem - ato de montar novamente peças, componentes ou fragmentos que foram separados, em despossessão. Onde o olhar colonial via apenas “tipos” étnicos, o método de Campt revela sujeitos que mantêm algo em reserva, uma recusa em serem totalmente subsumidos pelo olhar missionário, científico, ou de um outro poder, como em Femmes algériennes de Marc Garanger.

No terceiro projeto Temporalidades Háptica: A frequência silenciosa explora álbuns de prisioneiros da Prisão de Breakwater (Cidade do Cabo) e as fotos de identificação dos Freedom Riders nos EUA. Campt foca- se nas temporalidades hápticas, o modo como o toque e o contacto físico com o arquivo (o peso dos álbuns, o cheiro do papel, as notas manuscritas em livros como o Book of innocents) informam a análise. A análise háptica permite resistir ao efeito silenciador dos dados estatísticos. Ao observar os sinais pintados nos uniformes dos prisioneiros para indicar onde colocar as mãos, Campt identifica o momento da captura fotográfica como um evento de submissão forçada, mas também de confronto. No caso dos Freedom Riders, ela “escuta” como eles “sequestraram” o processo de detenção, utilizando os seus próprios rostos para olhar de volta para o estado com desafio, transformando o arquivo criminal num registro de vitória política.

Num segundo estudo Debra Vidali (2020) aborda a criação teatral etnográfica não apenas como uma modalidade de representação ou reencenação encenada, mas como uma modalidade de coprodução radical de conhecimento antropológico, que rompe com a autoria, o eu, a linearidade e o conhecimento baseado em proposições através de processos multimodais, multissensoriais, colaborativos e corporizados. Tanto na incubação como na performance, elementos multimodais e multissensoriais como a voz, o corpo, a memória, o som, o movimento, o texto, o ritmo, as velocidades e as relações dialógicas com outros media combinam-se, colidem e fundem-se para inventar formas de conhecer, expressar e documentar. Defende assim que esta alquimia multimodal opera não só através da fusão de elementos inovadores, mas também por processos consagrados de criação teatral, concebidos para reconfigurar as relações com o eu, o outro, a linguagem, o corpo e a criatividade. Através de uma discussão sobre a alquimia dos processos de construção coletiva e da criação de tableaux (quadros vivos) de teatro físico, e com base em dez anos de trabalho nesta área com vinte projetos diferentes, Debra Vidali oferece uma perspetiva sobre o potencial da criação teatral coletiva como um modo de prática antropológica que atinge o cerne do que fazemos e do que consideramos importante.

Este artigo de Debra Vidali examina o teatro etnográfico participativo como uma ferramenta poderosa para a produção de conhecimento antropológico multimodal. A autora utiliza o conceito de alquimia para descrever como processos coletivos e sensoriais transformam experiências vividas em expressões artísticas e teóricas. Através da análise de vários projetos, Vidali demonstra como o corpo, o som e o movimento podem romper com as formas tradicionais e centradas no texto de fazer ciência social. O trabalho destaca a importância da cocriação em grupo, onde a autoridade académica é partilhada para gerar novas formas de compreensão sobre temas como o racismo e a justiça social. Defende que a prática teatral não é apenas uma representação, mas sim um método radical de investigação que liga a antropologia à vida pública e emocional.

O teatro transforma a investigação antropológica ao atuar como uma modalidade de coprodução de conhecimento radical, que interrompe as noções convencionais de autoria, linearidade e conhecimento baseado em proposições. Esta transformação ocorre através de processos colaborativos e corporizados que permitem à antropologia ir além da mera representação ou encenação de dados.

O teatro impacta a prática antropológica de várias formas fundamentais: Alquimia Multimodal. O teatro utiliza uma “alquimia” de elementos — como voz, corpo, memória, som, movimento e ritmo — que se fundem para inventar novas formas de conhecer, expressar e documentar a experiência humana. Esta abordagem desafia o logo centrismo da antropologia tradicional, integrando o corpo e a sensação que muitas vezes foram mantidos à margem da disciplina. Reconfiguração de Relações. Processos como a construção de conjuntos (ensembles) e a criação de quadros vivos (tableaux) são desenhados para renovar as conexões com o eu, com o outro, com a linguagem e com o corpo. Atividades como o “círculo de aquecimento” dissolvem resistências e promovem uma “prontidão corporizada”, permitindo que os investigadores pensem em movimento em vez de apenas em conceitos. Análise e Teoria Corporizada: O teatro serve como um local para a construção de teoria e análise, onde quadros vivos podem comunicar insights etnográficos complexos sem a necessidade imediata de tradução textual. Estes métodos de “pensar em movimento” facilitam o acesso a conhecimentos não textuais que emergem através da interação física e da desorientação produtiva. Dissolução de Fronteiras Temporais. A prática teatral na antropologia rompe a divisão tradicional entre as fases de recolha de dados e de análise. No teatro etnográfico participativo, os dados podem ser gerados, interrogados e teorizados simultaneamente durante o processo de criação, tornando a investigação um ato de invenção contínuo. Agir coletivo, modalidade que promove uma autoria partilhada, onde as fronteiras entre investigador, guionista e ator se dissolvem. O conhecimento resultante é coautorado, coproduzido e coabitado, transformando a investigação num esforço comunitário e numa forma de envolvimento público.

Em suma, o teatro permite que a antropologia se torne uma prática mais viva, utópica e revolucionária, oferecendo ferramentas para criar encontros antropológicos que ressoam para além dos formatos académicos tradicionais, como Debra Vidali na primeira pessoa revelando sua posicionalidade.

No âmbito do meu percurso rumo ao futuro da antropologia, tenho-me dedicado à aprendizagem, à experimentação e à criação na interseção entre a antropologia e o teatro nos últimos dez anos. O objetivo tem sido triplo: (1) explorar e expandir as modalidades antropológicas nesta interseção; (2) construir comunidade, conexão e diálogo, particularmente durante “este momento de profunda discórdia e desconexão... injustiça... e desequilíbrio” (Chong 2016); e (3) sentir-me viva. O trabalho tem-se revelado tanto utópico como revolucionário, nos sentidos descritos por Chong e em termos do que promete para a antropologia. É também mágico — uma qualidade bem conhecida pelas pessoas do teatro e por aqueles que já trabalham na intersecção entre a antropologia e o teatro — produzindo aquilo a que chamo transformações alquímicas. Vidali, 2020, p. 402

O terceiro projeto ou experimentação multimodal está em fase de desenvolvimento com a Associação Maracatu de Baque Solto ONCA DOURADA da Chã do Esconso 4 e os antropólogos José da Silva Ribeiro, Renato Athias e Manoel Francisco. Ao terminar o primeiro alinhamento das imagens (1º corte), partilhá-lo com os membros da Associação e acompanharmos de novo a participação do Onça Dourada no Carnaval de Recife de 2026 colocamo- nos algumas questões: Como foi nossa aceitação na Associação? Que linha de orientação para a pesquisa? O que trazemos de novo para a Associação? Quais os desafios e as dificuldades?

A aceitação foi cordial e expressa pela voz do mestre do Maracatu “agradeço ao Renato, ao Manoel e José (rep) que vieram ver de perto maracatu como é (rep)”, colocada no início do filme, pela disponibilidade, abertura e colaboração da direção e aceitação irrestrita, pela permissão de podermos registar os atos preparatório da apresentação do Maracatu para a Comunidade de Chã do Esconso em frente à sede da Associação e pelo convite para registarmos a apresentação do Onça Dourada no Carnaval do Recife.

As primeiras dúvidas surgiram de como colocar os créditos. Uma obra da nossa autoria para apresentação nos nossos fóruns nacionais e internacionais (Congressos, Encontros, Atividades de ensino...) ou uma proposta de colaboração? Necessitávamos dela para definir os critérios, mas também para retornar ao encontro com os atores principais do Maracatu para vermos o que falta na primeira versão do filme. Tínhamos identificado duas faltas: identificação de Daniel como chefe dos Caboclos de lança – uma das personagens principais no desenvolvimento da dança dos Caboclos e a ritualidade desta dança. Necessidade também de perguntarmos sobre as reações à primeira versão do filme: o que acrescentar ou abstrair? O que é que o filme traz de novo para a Associação e a Comunidade?

Os meios que utilizamos no registo de imagens – telemóvel, microfones e software de edição é comum a muitos membros da Associação, da comunidade e a órgãos administrativos. Identificamos uma grande qualidade de produção audiovisuais disponíveis nas plataformas Youtube5, Instagram6, Facebook7.

Propúnhamos com o filme algo que pudesse constituir uma mais valia para a Associação, para os “brincantes” e para a Comunidade. Sobretudo uma clareza de intensões em relação à utilização do filme, ao processo colaborativo na edição e à sua divulgação e apresentação pública.

Perspetivamos um ensaio de antropologia multimodal. Além da escrita a antropologia partilhada situava-se num diálogo entre a performance do Maracatu (processo social e ritual) – e o registo fílmico como formas de contar uma história para a comunidade e para público mais amplos: a performance no Carnaval de Recife, a apresentação do filme na Associação, em Aliança e noutros lugares que a Associação decida, pois ele lhes pertence. Ensaiamos também múltiplas formas de colaboração e atenção aos requisitos éticos do processo colaborativo – aceitação e legitimação dos investigadores, participação dos brincantes como investigadores pela integração dos seus registos e pela complementação do primeiro esboço do filme. A lógica da pesquisa é mais a de um processo que a de um produto. Quando o filme se venha a completar, deverá ficar disponível para a Associação para dele fazerem o uso que entenderem e para os antropólogos em suas atividades de formação e disseminação.

Quais os desafios e as dificuldades? Os desafios para os investigadores são sobretudo o de compromisso com a Associação e de um processo contínuo de negociação, mas também o maior empenhamento na qualidade estética do filme, reciprocidade em relação à qualidade das múltiplas performances do Maracatu.

Constatamos também múltiplas dificuldades no processo. Em primeiro lugar a distância de Recife à Chã do Esconso, cerca de 100 Km, acrescida às dificuldades de mobilidade (transportes), dificuldade de disponibilidade dos integrantes dos membros Associação e dos “brincantes” do Maracatu (trabalhadores da cana do açúcar).

Conclusão

A transição da antropologia visual para a multimodalidade não deve ser entendida como uma substituição, mas como uma reconfiguração. Trata-se de um movimento que amplia o campo da antropologia, integrando novas tecnologias e formas de expressão, ao mesmo tempo que reavalia os seus fundamentos epistemológicos. Mais do que uma mudança de ferramentas, a multimodalidade implica uma transformação na forma como concebemos o conhecimento, a experiência e a relação com o outro. Neste sentido, ela representa uma oportunidade para repensar o papel da antropologia e do cinema no mundo contemporâneo.

Os trabalhos apresentados desde que em 1995 iniciei o trabalho em Antropologia Visual, preocupações de colaboração e de devolução dos filmes produzidos às pessoas filmadas constituiu uma preocupação constante. Também as questões éticas e políticas foram objeto de cuidado. A figura inspiradora de Jean Rouch e dinâmicas de participação desenvolvidas por muitos antropólogos que se insurgiam contra uma antropologia colonial, pelo empoderamento local no processo de pesquisa, constituíram linha de orientação. Como em Congada Nossa Senhora do Rosário - Jequitibá - MG - Primeira abordagem da Coroação de Reis Congo (2007) ou Tá caindo fulô Tambús de Candombe da Comunidade do Açude Coroação de Reis Congo (2007) assumimos essa preocupação não obstante as dificuldades de desenvolver trabalho de campo com parceiros da academia com agendas, formações e objetivos diferentes. A antropologia modal e multimodal abre outras perspetivas, umas inscritas já em muitas práticas da antropologia visual (Jean Rouch, Marc Piault, David MacDougall, Sara Pink, Trinh T. Minh-ha entre muitas outras referências inspiradoras) e outras, referidas no texto, como inspiradoras de novos percursos (François Laplatine, Tina M. Campt, Debra Vidali entre muitas outras e muitos e outros autores)

Notas finais

1 A Associação Americana de Antropologia reconheceu em 2001 que os media visuais etnográficos (especificamente filme, vídeo, fotografia, multimedia digitais e exposições) desempenham um papel significativo na produção e aplicação do conhecimento antropológico e integram ofertas de disciplinas de cursos e de resultados da investigação; que os antropólogos envolvidos na produção e curadoria de trabalhos visuais trazem contribuições académicas valiosas para a disciplina e que estes incluem cada vez mais projetos ou produções que incorporam meios de comunicação visual como parte integrante dos seus curricula vitae. Em 2015 amplia relevância da antropologia visual para o debate teórico, para o ensino, para a inovação e para sua presença no espaço público e interesse – festivais, mostras curadorias e benefício das comunidades estudadas.

2 https://openanthroresearch.org/index.php/oarr/preprint /view/405

3 Estase é um conceito da medicina ocidental referente à interrupção ou lentidão do fluxo de líquidos corporais, como sangue (estase venosa) ou conteúdos intestinais, gerando acúmulo e estagnação. Pode ser definida como qualquer volume de material que sobra em qualquer estrutura da cavidade oral ou da faringe após a primeira deglutição do bolo alimentar, que seja maior do que uma fina camada ou uma prega de revestimento da estrutura, algo que se diferencie de uma simples aderência do material na estrutura anatómica (YOSHIKAWA et al. (2005)

4 A Associação Maracatu de Baque Solto ONCA DOURADA da Chã do Escondo foi registada como associação privada em 2018 - https://mapaosc.ipea.gov.br/detalhar/1266029

5 Maracatu Onça Dourada de Chã do Esconso, 2024 https://www.youtube.com/watch?v=NjJyabwqYdA,TupaocaBrasil https://www.youtube.com/@tupaocabrasiloficial, MBS Onça Dourada da Chã do Esconso - Polo: Cortejo Santo Antônio 2025 - FCCR - Prefeitura do Recife maracatu onça dourada https://www.youtube.com/watch?v=Dyq4Ai8g9H0

6 https://www.instagram.com/reel/DUzoJxYjrq1 / https://www.instagram.com/reel/DGtIU-JuKsz / https://www.youtube.com/watch?v=hVyLZFrTa8o / https://www.instagram.com/maracatu_onca_dourada_/

7 https://www.facebook.com/manguenocanavial/videos/maracatu-on%C3%A7a-dourada-ch%C3%A3-do-esconsoalian%C3%A7a-pevirada-cultural-da-cidade-da-alian/508867514227160 / https://www.facebook.com/famozinho.dabahia.923/videos/maracatu-on%C3%A7a-dourada-da-ch%C3%A1-de- esconso/1527118514982139 / https://www.facebook.com/manguenocanavial/videos/maracatu-on%C3%A7a-dourada-ch%C3%A3-do-esconsoalian%C3%A7a- pevirada-cultural-da-cidade-da- alian/1041184536750552/?locale=ms_MY

8 https://www.youtube.com/watch?v=4

9 https://www.youtube.com/watch?v=8sI3WLuqdQg&t=9s

Bibliografia / Filmografia

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Gupta, Akhil, e Stoolman, Jessie . 2022. “Decolonizing US anthropology.”American Anthropologist124: 778–799. https://doi.org/10.1111/aman.13775

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Tá caindo fulô Tambús de Candombe da Comunidade do Açude Coroação de Reis Congo, de José da Silva Ribeiro e Sérgio Bairon CEMRI – laboratório de Amtropologia Visual, Universidade Aberta e CEDIP – Diversitas USP. 2005. https://www.youtube.com/watch?v=8sI3WLuqdQg.

Vidali, Debra , Ethnographic Theater Making: Multimodal Alchemy, Knowledge, and Invention, AMERICAN ANTHROPOLOGIST, Vol. 122, No. 2, pp. 394–409, ISSN 0002-7294, online ISSN 1548-1433. 2020.