Capítulo / Chapter III | Cinema – Comunicação / Communication

Chromatic Iconography of Zhang Yimou: An iconographic analysis of the meaning of colors in Hero

A Iconografia Cromática de Zhāng Yìmóu: Análise iconográfica do significado das cores de Herói

Danilo Aroeira de Pinho Tavares

Escola de Belas-Artes – Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Brasil

Luiz Roberto Pinto Nazario

Escola de Belas-Artes – Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Brasil

Abstract

Director Zhang Yimou is a prominent Chinese filmmaker who has managed to reach large audiences while maintaining a particularly auteur-driven approach in his work. In films depicting China of today and the past, the director addresses subjects ranging from politics and action to gender violence and oppression. He does so by employing an extremely expressive visual narrative in which stands out an intentional use of color, aspect under which excels the 2002 movie Hero (Yīngxióng). Not only is the expressiveness remarkable, but also the depth of the possible meanings behind its colors, to the point of raising the following question: How does Zhang Yimou’s chromatic iconography enable symbolic interpretations in Hero, contributing to its narrative, aesthetic, and semantic structure? To answer such question, I rely on the iconological studies of Erwin Panofsky (1955) in order to conduct an iconographic reading of Zhang Yimou’s colors through a formalist film analysis, as suggested by the pairs of authors Jacques Aumont and Michel Marie (2009) and Francis Vanoye and Anne Goliot-Lété (2006), by means of the observation and interpretation of the film in fragments, as proposed by Serguei Eisenstein (2002). It was possible to identify a narrative with multiple temporalities explicitly demarcated throughout the film, in which four main colors stand out in five segments. Such color palette carries meanings that escape clichés and other representations consecrated by psychology and culture, thus establishing the films own original chromatic iconography.

Keywords: Color, Cinema, Iconography, Hero, Zhang Yimou.

Introdução

Dirigido por Zhāng Yìmóu (張藝謀), o filme Herói é passado na China no século 3 a.C., antes de sua unificação. Elementos da cultura oriental desta época estão presentes na obra. Valores como honra e tradição e a valorização do intelecto e do espírito, presentes principalmente nas doutrinas de Confúcio, servem de pano de fundo para a trama. As cores possuem um forte significado no enredo. A película obteve grande sucesso dentro e fora da China, chegando a receber diversas indicações e prêmios.

Herói lança mão de uma narrativa visual extremamente expressiva em que se destaca o uso intencional das cores, fazendo com que o filme tenha grande profundidade por atribuir a elas não apenas expressividade mas, também, significados explícitos que permitem interpretações simbólicas e formais. Amparado nos estudos de iconografia de Ervwin Panofsky (1955), parto de uma análise formal como sugerem as duplas de autores Jacques Aumont e Michel Marie (2009) e Francis Vanoye e Anne Goliot-Lété (2006), para observar os significados das cores no filme em seu contexto narrativo, prescindindo de outros significados consagrados pela psicologia ou pelos estudos culturais.

Sinopse

Figura 1 - Mapa da China Antiga. Fonte: Herói (2002)

No século 3 a.C., antes de ser unificada, a China era dividida em sete reinos rivais: Qin, Zhao, Yan, Wei, Han, Chu e Qi. Nesse período, segundo Marcel Granet (1968) chamado de Período dos Reinos Combatentes, havia incessantes guerras entre os reinos. Qin era governado por um rei impiedoso (interpretado por Daoming Chen) que pretendia unificar os reinos às custas do sangue de seus inimigos e acabar com a guerra de uma vez por todas.

Devido a sua conduta imperialista, o Rei (por vezes, também chamado de Imperador) sofre várias tentativas de assassinato por parte de guerreiros de alta classe. Três deles, do reino de Zhao – Céu (interpretado por Donnie Yen), Neve-Voadora (interpretada por Maggie Cheung) e Espada-Quebrada (interpretado por Tony Leung) –, eram considerados os mais perigosos. Um dia, um humilde prefeito1 local de um distrito rural de Qin – chamado guerreiro “Sem-Nome” (interpretado por Jet Li) – chega ao palácio do rei portando provas de que acabou com os três mestres guerreiros. O feito lhe rende recompensas e honrarias, e o privilégio de uma audiência particular com o Imperador.

Mapa cromático

Herói pode ser dividido em cinco segmentos ao longo do tempo, passando por quatro cores – preto, vermelho, azul e branco, até retornar ao preto na quinta sessão. Inserida em três desses trechos, há uma cor adicional: dentro do primeiro segmento preto, temos uma subseção cinza; dentro do trecho vermelho, uma subseção amarela; e, dentro do segmento branco, uma subseção verde. O mapa de cores do filme, então, é resumido da seguinte forma:

Figura 2 - Mapa cromático de Herói. Fonte: elaborado pelo autor.

No diagrama da figura 1, o tempo transcorre da esquerda para a direita, iniciando o filme na cor preta. Dentro deste segmento, há uma subseção na cor cinza; depois, tem lugar o trecho vermelho, dentro do qual há uma subseção em amarelo. A seguir, vem o trecho azul. Depois, o segmento branco do filme, dentro do qual há uma subseção verde. Por fim, temos a cor branca, que coexiste com a preta no último segmento do filme. Aqui discutirei o papel de cada cor no contexto narrativo do filme.

1. Preto

O filme tem início com o predomínio da cor preta. Vemos a chegada do Herói Sem-Nome ao palácio imperial, sempre rodeado por guardas e outros funcionários da esfera pública do estado de Qin, todos vestidos de preto. O protagonista é submetido ao escrutínio, passando por rigorosa revista antes de poder estar na presença do Imperador. São pretos também, o chão e os degraus do palácio, as armas e as indumentárias. A narrativa se passa no momento presente, o que faz com que os fatos transcorridos neste trecho do filme sejam fidedignos; isto é, o espectador é testemunha de tudo o que ocorre em primeira mão, sem a necessidade de acessar os eventos por meio de relatos de terceiros, como vemos acontecer nos trechos subsequentes.

Uma vez dentro do palácio, por ter derrotado o assassino Céu, a Sem-Nome é concedida a graça de ficar a apenas 20 passos de distância do Imperador. Neste momento, tem início o relato de como se deu sua vitória sobre o conspirador, e vemos o filme mudar de cor pela primeira vez.

1.1. Cinza

Céu era frequentador assíduo da casa de Xadrez, o que torna o local perfeito para uma emboscada. Sete membros da tropa de elite de Qin o interpelam, todos vestidos na cor cinza, mesma cor que tem o chão e as paredes da casa de Xadrez. Os guardas anunciam a prisão do guerreiro, que apresenta sua arma – uma formidável lança, cuja ponta está coberta por uma capa de couro – e aceita o duelo. Céu é o único que não está no esquema de cores dos demais: veste tons quentes, em uma mistura de laranjas e marrons. Sem desencapar a lança, derrota facilmente os soldados da guarda do Imperador, que se resignam na derrota e deixam o guerreiro partir.

Neste momento, trajando preto, o prefeito Sem-Nome anuncia sua presença e profere a voz de prisão. Basta um golpe de sua espada para que Céu reconheça sua força e desencape sua lança para enfrentá-lo com todo o seu poder. Ainda assim, após um embate equilibrado, os soldados do Imperador testemunham o momento em que Sem-Nome aniquila Céu e corta a ponta de sua lança, decretando definitivamente sua vitória. O filme volta ao trecho preto, e o diálogo entre Sem-Nome e o Imperador é retomado.

Fica claro que o preto é a cor do Estado de Qin, a cor do Imperador. Representa, portanto, o poder. Os soldados imperiais, embora membros de elite da guarda, não são páreo para Céu: tem menos poder. Assim como o cinza é uma gradação do preto; um “preto diluído”, é diminuto também o poder destes infelizes guerreiros: cinza, porque ainda representam o imperador, mas não o suficiente para ostentar a cor em sua máxima concentração.

Quem o pode fazer é Sem-Nome, que enfrenta Céu de igual para igual e chega a superá-lo: seu poder é ainda maior do que o do assassino lendário. Não apenas por ter o poder máximo, o Herói traja preto: como prefeito local, Sem-Nome faz parte da estrutura burocrática do Império. Ele, portanto, está oficialmente integrado ao governo, ao passo que Céu ostenta cores que não poderiam ser o preto – que representa do poder e o imperador –, muito menos o cinza – um poder reduzido – ficando, por sua vez, com a combinação laranja/marrom, que não tem um significado particular a não ser “fora da lei”, ou “fora do Estado”.

Por ter derrotado Espada-Quebrada e Neve-Voadora, Sem-Nome pode então avançar a apenas dez passos de distância do Rei. Este privilégio seria concedido a quem derrotasse apenas um dos dois, e o Herói conseguiu o notável feito de dar cabo de ambos. Impressionado pela façanha, o Imperador indaga ao Herói sobre como ele teria sido capaz de superar guerreiros que não foram contidos nem mesmo por três mil guardas imperiais. Tem início o relato que ocorre quando o filme novamente muda de cor.

2. Vermelho

Aqui tem início uma cadeia de eventos que se repetirá nas duas cores subsequentes, azul e branco: após o ataque do exército de Qin, Sem-Nome, Neve-Voadora e Espada-Quebrada se reunem na biblioteca; Neve atinge Espada-Quebrada com sua espada; Sem-Nome e Neve duelam em frente ao exército imperial. Embora sob diferentes circunstâncias e entrepassados por eventos distintos no trecho destinado a cada cor, estes acontecimentos permanecem.

O relato da cor vermelha tem início quando Sem-Nome afirma que Espada-Quebrada e Neve-Voadora eram amantes, mas que estavam brigados há três anos. Para colocar um contra o outro, disfarçado como um cidadão local, ele decide encontrá-los na escola de caligrafia onde viviam no pequeno reino de Zhao, que sofria com a ameaça do grande reino de Qin. Ao chegar na escola, vemos que não apenas as roupas de todos os personagens, mas também a areia, o chão e as paredes do edifício são vermelhos.

A fim de estudar seu oponente e descobrir o segredo da força de Espada-Quebrada, Sem-Nome lhe encomenda um pergaminho com a caligrafia de “Espada”. Antes que começasse a executá-lo, as tropas do imperador atacam a escola. Por serem membros do governo, todos os soldados trajam preto, como seu imperador. As penas nos topos de seus elmos, contudo, são vermelhas – detalhe que esclarecerei adiante.

Tem início o ataque e a escola de caligrafia é engolida por uma chuva de flechas. Neve-Voadora e Sem-Nome se unem para repelir o ataque, desviando os projéteis em uma soberba demonstração de habilidade. Neve, intrigada pela capacidade incomum, indaga a Sem-Nome, exigindo que revele sua verdadeira identidade. O Herói, então, convida a guerreira e seu ex-amante para uma reunião naquela mesma noite, na biblioteca, quando tudo seria revelado.

E qual seria a revelação? Sem-Nome derrotou Céu que, no leito de morte, confessou ao Herói seu amor por Neve-Voadora. Enciumado, em um ato de vingança Espada-Quebrada subitamente toma sua criada Lua como amante. A relação é voraz, apaixonada. Em seguida, o guerreiro provoca Neve, sua ex-amante, dizendo não tê-la mais em seu coração.

Figura 3 - Neve mata Espada-Quebrada. Fonte: Herói (2002)

Ao virar-se de costas, recebe o golpe derradeiro de Neve-Voadora, que se vinga do amante pelo mesmo motivo pelo que ele a teria traído: ciúmes. No instante seguinte, ela derrama lágrimas em arrependimento, mostrando ter agido de modo precipitado ao matar Espada-Quebrada.

Desolada pela perda de seu estimado mestre, a criada Lua desafia Neve a um duelo. O cenário da luta traz a quarta cor do filme.

2.1. Amarelo

Embora a floresta seja amarela, bem como as pétalas que precipitam como uma chuva melancólica, as duas personagens ainda trajam o vermelho. A princípio, Neve não tem interesse em lutar com uma oponente inferior, mas a situação fica insustentável diante da insistência de Lua. Neve, então, decide fazer o que entende ser a vontade da criada e acabar com sua vida. Embora tivesse o intento assassino, Lua falha. Neve, por sua vez, leva a termo seu segundo assassinato, o que é evidenciado pela mudança de cor das pétalas, que passam do amarelo ao vermelho, preenchendo toda a cena.

Figura 4 - Pétalas que mudam de cor. Fonte: Herói (2002)

Junto com as pétalas, retornamos ao segmento vermelho do filme. É notável que, neste trecho, todos os personagens tomam suas decisões baseadas em forte emoção, sobretudo em um momento de raiva ou ciúmes. Suas atitudes são impensadas, desde Espada-Quebrada, que toma Lua como amante por causa do ciúme, passando por Neve, que assassina Espada-Quebrada pelo mesmo motivo, vindo a arrepender-se momentos depois. E Lua que, sem ser páreo para sua adversária, decide enfrentá-la por vingança. É evidente que o vermelho é, portanto, a cor das decisões precipitadas e das fortes emoções.

Voltamos uma vez mais ao diálogo entre Sem-Nome e o Imperador, momento em que o filme nos brinda com um importante ponto de virada: por ter enfrentado Neve e Espada-Quebrada tendo os considerado nobres e excepcionais, o Imperador questiona a veracidade da história do Herói e o acusa de haver conspirado com os demais assassinos. O imperador passa a narrar o que ele acredita ter acontecido, e o filme então adquire nova cor.

3. Azul

Após o ataque de flechas do exército imperial, os três protagonistas já estão na biblioteca. Assim tem início o relato do Imperador, que segue a descrever sua versão dos fatos. Segundo o monarca, Sem-Nome teria desenvolvido um golpe letal e inigualável, capaz de assassinar o Imperador desde que proferido a uma distância de dez passos.

Para convencer Neve-Voadora e Espada-Quebrada de que seria capaz de assassinar o imperador, Sem-Nome faz uma demonstração atingindo as estantes que estão a dez passos de distância e, em seguida, diz ao casal que, após haver derrotado Céu diante da guarda imperial – o que acontece porque o assassino teria voluntariamente se deixado vencer –, ele precisaria da ajuda de apenas um dos dois para se aproximar a dez passos do Rei. Ele pede que o casal decida quem deve se sacrificar pela causa e duelar com ele no dia seguinte, diante do exército imperial, e se retira.

“Temos de ir amanhã”, reconhece Neve, ao que Espada-Quebrada responde: “Ir significa morrer”. Resignada, sem mostrar tristeza ou raiva, ao contrário: com uma calma consciente, Neve replica: “Morreremos juntos, então”. O diálogo atesta ao estado racional em que se encontram os personagens, que decidem de maneira voluntária, sem impulsividade, por se sacrificar pela causa de derrotar o Imperador de Qin.

Segue uma cena em que o casal passa o que seria sua última noite juntos, sem a exuberância vista no trecho da cor vermelha, em que a consumação do ciúme se dá pela paixão: o encontro sereno dos amantes é um ato de amor.

No dia fatídico, Neve desperta primeiro. Quando o casal caminha para o duelo, vemos Espada-Quebrada desembainhar sua arma apenas para ser surpreendido por Neve, que o atinge antes. Ambos haviam tido a mesma ideia: ferir ao outro, impossibilitando-o de morrer no duelo com Sem-Nome. Ocorre que Neve-Voadora estava um passo à frente, e se sacrificará sozinha para que seu amado viva.

O duelo entre Sem-Nome e Neve acontece diante dos soldados imperiais, que representam o poder do Imperador e, portanto, trajam preto – mas, desta vez, seus elmos não ostentam penas vermelhas ou de qualquer outra cor. O tom do preto também é azulado, assim como a vestimenta de Sem-Nome. Tem início a luta e, para não deixar qualquer dúvida, Neve diz ao Herói que está disposta a morrer “de bom grado” pela causa que compartilham.

Figura 5 - A escolha de Neve Voadora. Fonte: Herói (2002)

Em absoluto contraste com o segmento de cor vermelha, no trecho azul todos os personagens tomam suas decisões de maneira tranquila e ponderada. A emoção dá lugar à razão, significado que atribuo aqui à cor azul: enquanto o vermelho é a emoção que resulta em decisões precipitadas, o azul nos traz a racionalidade das decisões premeditadas. Por ter sido descoberto em sua traição, Sem-Nome decide, então, contar ao imperador a versão verdadeira dos fatos e o filme passa a ter a cor que o acompanhará até o final.

4. Branco

Assim como no trecho azul, o segmento branco tem início na cena da biblioteca. No terceiro e último relato do filme, Sem-Nome demonstra sua habilidade e precisão atingindo uma flecha branca em meio a dezenas de flechas negras que voam pelo ar, sem sequer tocá-las. Ele afirma ser capaz de utilizar esta técnica para atingir o oponente a dez passos de distância, sem comprometer órgãos vitais, proporcionando um ataque convincente o suficiente para enganar a guarda de elite do Imperador e seguro o bastante para que a vítima não pereça. Nisto consistia a primeira parte do plano: fingir derrotar Céu diante dos guardas do Rei para obter a recompensa de se aproximar a vinte passos de distância. Com Céu, que já se encontrava fora de perigo, restava a ajuda de um dos dois, que deveria duelar com Sem-Nome diante do exército imperial para que pudesse avançar os dez passos restantes. O plano parecia ser perfeito, até que Espada-Quebrada interfere de maneira surpreendente e afirma que não permitiria que o Imperador fosse assassinado.

Neve, então, pede a ajuda de Sem-Nome para derrotar Espada-Quebrada e impedir que ele interfira com o plano. Neve duela com seu amante e, quando o embate aparenta equilíbrio, o Herói intervém abrindo uma brecha na defesa do espadachim para que Neve-Voadora o atinja, causando um ferimento não letal que o tira de combate. Lua, sua fiel criada, decide punir Sem-Nome e o ataca. Sem esforço, o Herói a derrota duas vezes, em ambas parando sua lâmina a poucos centímetros do pescoço da jovem, numa clara demonstração de superioridade. Ainda assim, mesmo depois de haver sido humilhada e desarmada, ela empreende um último ataque de mãos vazias, mas é impedida por Espada-Quebrada, que ordena que ela pare. Afinal, não seria páreo para Sem-Nome. Lua, que estava disposta a se sacrificar por seu mestre, coloca sua lealdade ao mestre acima de seu orgulho e acata a ordem.

Com Espada-Quebrada ferido e fora de combate, o caminho estava livre para que Neve-Voadora e Sem-Nome seguissem com o plano. Neve pede a seu criado que, após o duelo com Sem-Nome, ele vá ao palácio averiguar o desfecho do plano: caso o assassinato do Imperador fosse bem sucedido, ele deveria erguer uma bandeira vermelha; caso falhasse, uma amarela. O duelo prossegue diante dos soldados de Qin, e Sem-Nome desfere seu golpe profundo, mas não-letal, e consegue ludibriar os soldados. De posse da espada de Neve e da Lança de Céu, o Herói segue rumo ao palácio para coletar sua recompensa e arrematar o plano de assassinato, quando é abordado por Espada-Quebrada, que tenta dissuadi-lo. Em sua argumentação, o guerreiro calígrafo conta sobre seu passado, em como conheceu Neve-Voadora e a invasão do palácio três anos antes. Esse flashback nos apresenta à última cor que nos faltava.

4.1. Verde

Os jovens Espada-Quebrada e Neve-Voadora vivem e treinam corpo e mente por meio da espada e da caligrafia com o objetivo de se aperfeiçoar. Ao atingir o ápice do treinamento, decidem invadir o palácio contra três mil soldados. De preto, como já vimos, por representarem o poder do Estado de Qin, desta vez os soldados não tem penas vermelhas sobre seus elmos, mas brancas. Eles são derrotados com facilidade pelos invasores, até que chegam ao Palácio. Enquanto Neve-Voadora, sozinha, contém a guarda imperial do lado de fora, Espada-Quebrada entra para desafiar o Imperador.

A luta aparenta ser equilibrada a princípio, mas Espada-Quebrada logo mostra sua superioridade. A sala é adornada por panos verdes, que o invasor usa para se ocultar confundir seu adversário. A fim de encerrar com o jogo de esconde-esconde e encarar seu inimigo, o Imperador decide cortar os panos verdes que atrapalham sua visão. Espada-Quebrada se revela, e os dois partem em direção um ao outro para o golpe decisivo. O invasor desarma a espada do Rei com facilidade no último instante, e desfere o golpe letal no pescoço – contudo, apenas de raspão. Espada-Quebrada poupa o monarca enquanto os panos verdes caem, assim como a esperança de Neve-Voadora, que olha supresa para o frustrante desfecho do combate.

O trecho verde significa, portanto, a esperança: esperança da juventude dos guerreiros, esperança em um futuro melhor, esperança que se esvai quando Espada Quebrada poupa o Rei. O cair dos panos verdes atua como metáfora para a esperança que cai neste instante. Finda o flashback e Espada-Quebrada, finalmente, oferece a Sem-Nome a justificativa para esta decisão tão drástica. De volta à cor branca, ele escreve na areia as palavras “Nossa Terra”. Neste ponto, cessam os relatos e o espectador passa a acompanhar em tempo real o que acontece com os personagens em duas frentes: uma, com Neve-Voadora e Espada-Quebrada; a outra, com Sem-Nome e o Imperador. A cor branca passa a se alternar com a cor preta para o ato final do filme.

5. Branco e Preto

A atitude de Espada-Quebrada visa o bem maior. Ele reconhece que apenas o Imperador de Qin tem o poder necessário para unificar o país e cessar com as guerras entre os reinos. Mesmo que alguns pereçam, pelo bem de “Nossa Terra”, o Imperador deve ser poupado. Ao ouvir tais palavras, o Imperador se comove por ter sido compreendido por seu inimigo, alguém a quem reconhece como nobre. Ele, portanto, aceita seu destino e oferece a própria espada para que Sem-Nome dê termo ao plano e conclua o assassinato. De costas para seu assassino, o Imperador contempla o pergaminho que continha a caligrafia de Espada-Quebrada: o caractere “Espada”, que pode ser escrito de dezenove maneiras, em uma vigésima variação repleta de significado. Ao traduzir os elementos do ideograma, o Imperador enxerga a verdade de Espada-Quebrada: após passar por três estágios de evolução, o guerreiro chega ao seu ideal máximo: a paz.

Sem-Nome se prepara para desferir o golpe. No último instante, contudo, ele gira a espada e toca o imperador apenas com o punho da arma, poupando sua vida. “Um homem morto implora para que não se esqueça do ideal máximo de um guerreiro”, são suas últimas palavras. Ele solta a espada e deixa a sala do trono e um imperador atônito.

O criado de Neve-Voadora, que observava tudo de perto, galopa de volta ao deserto e ergue a bandeira amarela, sinalizando que o assassinato havia falhado. Neve-Voadora cai em prantos e decide tirar satisfação com Espada-Quebrada. Quando ele diz que dissuadiu Sem-Nome ao escrever na areia “Nossa Terra”, Neve-Voadora o indaga: “é só isso o que tem em seu coração?” O espadachim afirma que também a tinha, mas é tarde demais. Ela não se convence pelas suas palavras e pede que saque sua espada.

O casal troca alguns golpes, até que Neve-Voadora se lança contra Espada-Quebrada. O guerreiro, que até então havia desviado com sucesso todas as investidas, propositalmente solta sua espada e se deixa atingir. Desta vez, o golpe é fatal. Neve, incrédula, pergunta por que ele não desviou o ataque. “Para que acreditasse em mim”, ele responde antes de sucumbir, para desespero da guerreira, que grita em dor e tristeza. Ela, então, abraça por trás o corpo desfalecido de seu amado e segura o cabo da espada que está fincada em seu peito. Em seguida, ela puxa a arma, fazendo com que a lâmina que havia perfurado o coração de Espada Quebrada atravesse também o de Neve-Voadora.

Após ter sido poupado, o Imperador se vê diante do dilema de executar ou não seu algoz. Por fim, para que sirva como exemplo, ele decide condenar à morte o Herói e autoriza seus arqueiros a disparar suas flechas contra Sem-Nome. O guerreiro, embora capaz de desviá-las, aceita seu destino. Sem-Nome é executado como assassino mas enterrado com honrarias de Herói, o Imperador de Qin procede à conquista e unificação do país, a que os chineses ainda hoje se referem como “Nossa Terra”.

Diferentemente dos trechos vermelho e azul, em que as ações dos personagens eram pautadas pela emoção ou pela razão respectiva e exclusivamente, no trecho branco há um equilíbrio: razão e emoção coexistem. Qual seria, então, o significado da cor branca no contexto do filme? “Verdade” é um bom candidato, já que o branco é o trecho em que o espectador vem a conhecer os fatos tal como se deram. Não se trata mais da “mentira” de Sem-Nome em vermelho ou da “imaginação” do Imperador em azul. Contudo, embora coerentes com o contexto de cada um destes segmentos do filme, não creio que estes significados sejam suficientes, já que há mais elementos a considerar. O mais importante, apresento a seguir.

Morte

O conceito de morte aparece de maneira proeminente no filme, sobretudo em sua forma mais violenta: assassinato, ou seja, morte com intento. Esta é a natureza de todos os óbitos no segmento em vermelho: os soldados de Qin trazem as flechas para matar o povo de Zhao; Neve-Voadora se vinga intencionalmente de Espada-Quebrada e o mata (ainda que se arrependa em seguida, esta é sua vontade no momento em que desfere o golpe); Neve mata Lua; Herói mata Neve-Voadora diante dos soldados do Imperador.

Vermelho, então, significa também assassinato. Este, contudo, não é o único significado para morte que vemos no filme. Apesar de ter a intenção de assassinar Neve no trecho amarelo, Lua fracassa: por isso as pétalas são amarelas. Só se tornam vermelhas quando Neve a mata. Enquanto o vermelho, portanto, representa o assassinato consumado, o amarelo representa o assassinato que fracassa. É por esta razão que os soldados arqueiros trazem a pena vermelha em suas cabeças enquanto vestem preto: são membros do governo, mas trazem a morte aos seus inimigos. Neve-Voadora nos explica o papel de cada uma dessas cores no que diz respeito à morte em uma fala à qual já aludimos e que ocorre no segmento branco do filme, ao pedir a seu criado que erga a bandeira vermelha em caso de sucesso no assassinato e a amarela caso o plano fracasse.

Figura 6 - Neve Voadora explica os cores do assassinato: vermelho para bem-sucedido, amarelo para mal-sucedido. Fonte: Herói (2002)

O terceiro significado de morte reside, por fim, na cor branca. Não se trata de assassinato, seja ele bem ou malsucedido. Lembremo-nos de como se dão as mortes neste segmento do filme: primeiro, durante o relato em verde, no qual os soldados imperiais são facilmente derrotados por Neve e Espada-Quebrada quando da invasão do palácio. Embora trajados de preto, neste momento as penas nos altos de seus elmos são brancas e não vermelhas. E, mesmo sucumbindo diante dos invasores, os soldados seguem a enfrentá-los, mesmo que isso signifique sua morte. De modo similar, Lua está disposta a entregar sua vida no combate contra Sem-Nome, mesmo diante da evidente disparidade entre os dois, sendo poupada apenas pela ordem de seu mestre. O Imperador, por sua vez, entrega sua própria espada ao seu algoz, resignado. Sem-Nome, então, abdica do plano de assassinar o imperador, ciente da consequência que isso o traria: execução. E mais: já sabíamos que ele era capaz de desviar flechas, como vimos no trecho vermelho. Ou seja, ele se deixa voluntariamente atingir pela saraivada de projéteis. Depois, Espada-Quebrada se deixa atingir por Neve-Voadora; ela não tinha intenção de matá-lo, mas ele voluntariamente se coloca de peito aberto contra sua lâmina na esperança de convencê-la de seu amor. A própria Neve, em seguida, trespassa o próprio peito com a arma que jazia em seu amante. O branco significa sacrifício; autoextermínio. Trata-se da morte autoinflingida.

Considerações finais

Dirigido por Zhāng Yìmóu (張藝謀) em 2002, Herói traz uma narrativa com múltiplas temporalidades demarcadas de maneira explícita ao longo do filme. É possível destacar quatro cores principais em cinco segmentos (uma das cores se repete no último): Preto, que representa o momento presente, é a cor que abre e encerra o filme. Ela é seguida pelo vermelho, que contém a versão dos acontecimentos de acordo com Sem-Nome enquanto conspirador, que mente e os distorce os fatos. O trecho azul traz a interpretação um tanto imaginativa dos mesmos acontecimentos por parte do Imperador, e o segmento branco traz a versão verdadeira dos fatos por parte de um Herói resignado. No contexto do filme, o preto é associado ao poder do Imperador do reino de Qin e sua estrutura estatal. Quando diluído e convertido em cinza, indica que o poder é menor. O vermelho, por sua vez, traz o trecho em que os personagens tomam decisões precipitadas e passionais, portanto representando a emoção, ao passo que o azul representa a razão, o que é corroborado pela conduta serena e racional dos personagens neste segmento do filme. O verde, por sua vez, significa esperança, possivelmente o único significado que encontra eco no senso comum e na psicologia das cores: Espada-Quebrada e Neve-Voadora jovens, com esperança de um mundo melhor. A morte é um conceito recorrente no filme, sendo associada a três cores: o vermelho, que representa o assassinato levado a termo, enquanto o amarelo representa o assassinato que fracassa. Por fim, o branco representa o sacrifício: morte por suicídio. Zhāng Yìmóu atribui à paleta de seu filme significados originais, escapando a clichês e representações consagradas pela psicologia e pela cultura, tais como “preto significa luto”, “vermelho significa perigo”, “azul significa ‘masculino’” ou “branco significa pureza”. Assim, o diretor estabelece uma iconografia cromática própria e original, fazendo com que os significados contextuais da cores do filme enriqueçam sobremaneira a experiência de assistí-lo.

Notas Finais

1 Aqui, o termo “prefeito” empregado no filme é uma tradução aproximada. Na história, “prefeito” era alguém que respondia oficialmente pelo local, encarregado de manter a ordem. Não se tratava de um cargo político. Há quem se refira ao cargo citado no filme como sendo o de “xerife rural”.

Bibliografia

AUMONT, Jacques; MARIE Michel. A análise do Filme. Lisboa: Edições Texto e Grafia, 2009.

AYPING, Yuan. Chinês para Brasileiros. Rio de Janeiro: Centro Cultural China-Brasil, 2005.

BUCKLAND, Raymond. O poder mágico das cores. São Paulo: Siciliano, 1991.

BURGOYNE, Robert. Color in the Epic Film: Alexander and Hero. In.: Rebeca - Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual, v. 1 n. 2 (2012): REBECA 2. 2012, p. 14 - 39.

CHU, Yingchi. The politics of reception: ‘Made in China’ and western critique. In.: International Journal of Cultural Studies Volume 17, Issue 2, p. 159 - 173.

EISENSTEIN, Sergei. A forma do filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.

FARINA, Modesto (org). Psicodinâmica das cores em comunicação. 5. ed. São Paulo: Blucher, 2006.

GRANET, Marcel. A civilização Chinesa. Rio de Janeiro: Editions Ferni, 1968

HARRISON, Mark. Zhang Yimou’s Hero and the Globalisation of Propoganda. Millennium, 34(2), 569-572. https://doi-org.ez93.periodicos.capes.gov.br/10.1177/03058298060340021301 (Original work published 2006). (acesso em 11 de dezembro de 2025)

LAU, Jenny Kwok Wah. Hero: China’s response to Hollywood globalization. In.: Jump Cut: a review of contemporary media. (disponível em: https://www.ejumpcut.org/archive/jc49.2007/Lau-Hero/index.html. acesso em 11 de dezembro de 2025)

PANOFSKY, Erwin. Iconografia e iconologia. In.: O significado nas artes visuais. São Paulo: Perspectiva, 1955, p. 47-87

PEDROSA, Israel. Da cor à cor inexistente. 10. ed. São Paulo: Senac, 2010.

PETTY, Sheila. Never Forfeit the Self: The Art of Zhang Yimou. In.: Film-Philosophy Vol. 7, Issue 5: Soviet and Asian Cinemas. Edimburgo: Edinburgh University Press, 2003.

RAWNSLEY, Gary D. The Political Narrative(s) of Hero. 2007; Taylor & Francis; Volume: 34; Issue: 1, 2007.

STRATHERN, Paul. Confúcio em 90 minutos: (551 a.C.-479 a.C). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

WALDRON, Arthur. The Great Wall of China. Cambridge: Cambridge Paperbacks, 1990.

YE, Tan. YIMOU, Zhang. From the Fifth to the Sixth Generation: An Interview with Zhang Yimou. Film Quarterly, vol. 53, no. 2, 1999, pp. 2–13. JSTOR, https://doi.org/10.2307/1213716. Acesso em 11 Dez. 2025.

Filmografia

Herói (Ying xiong). 2002. De Zhang Yimou. China: Miramax. DVD