Abstract
The conflicts that affect humanity in different parts of the globe exacerbate poverty and insecurity, impacting on everybody’s lives. The alterations they produce carry out radical changes in security and peace. Sometimes, this is compounded by the attempt to eliminate the other. Undertaken through their progressive annihilation, gradually the oppressor eliminates their uniqueness, culture, space and art. In a more radical way, there is sometimes an attempt to eradicate certain peoples and ethnicities, as well as the sovereignty of some countries. Through the conscious invasion of their territorial space, wars arise, attempting to weaken, if not extinguish, the peoples and culture of these territories. In example, the conflicts that rage in the Gaza Strip or Ukraine. I am from Palestine (2023), produced and directed by Rifk Ebeid and Iaman Zawahry, addresses the problem of the extermination, by omission, of a culture, a country, and a people. The animated short film presents a discussion on issues of identity, diversity, sovereignty, and nationality. In this sense, our proposal aims, through its presentation and analysis, to highlight the relevance of this narrative for raising awareness of the respect that humanity owes to others, to their differences, and to everything that makes them unique. The film also allows us to discuss the need to foster humanism and respect among peoples, striving for harmony and peace, contributing to education, respect, and acceptance of other peoples, cultures and traditions, thus promoting peace.
Keywords: Animated Film, I am from Palestine, Sovereignty, Education, Arts.
Introdução
Na passagem para o século XXI observa-se uma alteração nas formas e metodologias de intervenção clássica ao nível das políticas sociais, as quais se passam a focar no indivíduo e no trabalho que se pode desenvolver com o mesmo, tendo em conta o meio em que este se insere, os seus contextos e particularidades psicossociais e familiares, desenvolvendo formas de o responsabilizar face ao mundo e a sociedade, tornando-o mais participativo e interventivo a nível educativo, mas também a nível político, social e cívico. Simultaneamente, as políticas de desenvolvimento social e humano que vimos serem implementadas, alertam para a necessidade de nos percebermos como seres humanos iguais, com os mesmos direitos e deveres, não devendo haver lugar a qualquer forma de discriminação, desvalorização, desigualdade, vulnerabilidade ou exclusão. A Declaração Universal dos Direitos do Homem, um documento datado de 1948, narrando um conjunto de direitos, e também deveres, que todo o ser humano deve respeitar, evidencia, no seu texto, já este conjunto de necessidades (Declaração Universal dos Direitos do Homem 1948).
Nesta Declaração, uma carta de princípios onde se estabelecem e defendem quais os direitos e liberdades de todo o indivíduo, independentemente da sua raça, sexo, nacionalidade, etnia, religião ou qualquer outra condição, encontramos um propósito claro: a defesa dos direitos humanos. Adotada e proclamada pela Assembleia Geral na sua Resolução 217A (III) de 10 de Dezembro de 1948 e publicada no Diário da República, em Portugal, I Série A, n.º 57/78, de 9 de Março de 1978, mediante aviso do Ministério dos Negócios Estrangeiros, vemos nela expressos o direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal (artigo 3.º); o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei (artigo 6.º); o direito a uma nacionalidade (artigo 15.º); o direito à propriedade (artigo 17.º); o direito à liberdade de opinião e expressão (artigo 19.º); o direito à instrução (artigo 26.º); o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do progresso científico e de seus benefícios (artigo 27.º). No seu conjunto, do qual destacamos somente alguns dos seus artigos, percebemos que todos eles apontam para a necessidade do respeito pelo outro nas suas características, formas de ser, estar e pensar, mas também nas suas liberdades, identidades e garantias.
Ora não é isso que vimos hoje acontecer um pouco por todo o mundo. Os conflitos que grassam um pouco por todo o espaço do nosso planeta, afetam a humanidade na sua sobrevivência física, mas também nos aspetos relativos aos seus direitos e liberdades. Em distintos pontos do globo são iniciados conflitos que, aos poucos, minam esses direitos e liberdades, intentando destruir identidades, soberanias, nacionalidades. Agravando a pobreza e a insegurança, impactam a vida de todos, pois que as alterações que provocam operam mudanças radicais na vida e na segurança de todos nós. A tudo isto não são alheios o crescente número de pessoas deslocadas e os processos migratórios em curso. Acresce, por vezes, a tentativa de eliminação do outro, empreendida através da sua progressiva anulação e tentativa de supressão da sua singularidade, da sua cultura, do seu espaço, da sua tradição e arte. De modo mais radical surgem, por vezes, a tentativa de eliminação de alguns povos e etnias, bem como a individualidade e soberania de alguns países, como é o caso da Palestina ou da Ucrânia. Pela invasão consciente dos seus espaços territoriais, surgem as guerras que moldam a forma de ser e pensar de gerações por tempo indeterminado.
Simultaneamente, e no que concerne o exposto na Declaração Universal dos Direitos do Homem, encontramos uma narrativa que promove diversas formas de inclusão pois que surge como um dos pilares da promoção da dignidade humana (Declaração Universal dos Direitos do Homem 1948). O respeito pela diferença e a inclusão são também pilares que sustentam o conjunto dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), e mais especificamente aqueles narrados nas Prioridades estabelecidas pela Comissão Europeia, no que concerne a democracia europeia, organizada pelas metas estabelecidas nos Objetivos 5 – Igualdade de género, 10 – Reduzir as desigualdades e 16 – Paz, justiça e instituições eficazes (ODS 2020).
Os ODS constituem uma oportunidade única e necessária para apoiar um crescimento sustentável, regenerativo e inclusivo, sem o que será impossível fazer face à emergência climática, à perda galopante de biodiversidade e às desigualdades e assimetrias sociais (ODS 2020, s.p.).
Neste sentido, inserimos a necessidade de desenvolver uma sociedade inclusiva que promova e sustente um sentimento de pertença, valorize a diversidade, pratique o respeito pelas origens e modos de vida dos seus membros, procurando que todos possam ter acesso a bens e serviços em igualdade de oportunidades. A inclusão é um conceito central nos objetivos e metas estabelecidas pela Organização das Nações Unidas, autoridade que monitoriza o progresso dos países ao nível da implementação dos ODS. Na sua grande maioria, todos os países vêm desenvolvendo esforços para que os desequilíbrios existentes e que são fatores de vulnerabilidade e exclusão social, sejam aos poucos erradicados. São eles que muitas vezes promovem diversas formas de violência, discriminação, guerra e conflito. Acresce o facto de que, uma sociedade democrática é uma sociedade respeitadora da diferença e, por isso, inclusiva. Uma sociedade inclusiva é uma sociedade que promove o respeito dos direitos e liberdades de cada um sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição (Declaração Universal dos Direitos do Homem 1948). Acresce o direito de acesso à cultura e ao respeito que devemos a todos nós, fator determinante para a promoção do desenvolvimento, da interação e integração do ser humano, de forma livre e total, numa sociedade que queremos democrática e livre.
I am from Palestine (2023), produzido e dirigido por Rifk Ebeid e Iaman Zawahry, aborda uma problemática sensível nos dias de hoje. A partir de uma narrativa simples, mas eficiente, os autores propõem-nos uma discussão sobre as questões das migrações e da inevitável deslocação do indivíduo por via dos conflitos e das guerras que se encontram estabelecidas, mas também sobre questões de nacionalidade e identidade cultural. De uma forma subtil, mostram-nos como a diversidade e autenticidade de alguns se encontra em risco. A erradicação de uma identidade e país, por via da sua omissão, a nível da sua representação num mapa mundo, leva-nos a pensar como formas subtis de subtração de uma identidade, de uma cultura, de um país e de um povo se fazem de forma bastante gratuita pelas entidades soberanas de outros países que não o visado (I am from Palestine 2023). A curta-metragem apresenta-nos uma discussão bastante pertinente sobre questões de identidade, diversidade, soberania e nacionalidade e, neste sentido, a nossa proposta pretende, a partir da sua apresentação e análise, relevar a pertinência desta narrativa para a consciencialização do homem face ao respeito que deve ao outro, à sua diferença, bem como a tudo o que o faz particular. O filme permite ainda discutir a necessidade de fazer eclodir o humanismo e o respeito entre os povos, intentando a harmonia e a paz. Com este recurso pretendemos ainda contribuir para a educação inclusiva, a promoção do respeito e da aceitação do outro, das suas diferenças, da sua cultura e tradições, alcançando, assim, e progressivamente, o respeito pelo outro, a paz e a efetivação do narrado na Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948) e em alguns dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e as metas neles traçadas na Agenda 2030 (ODS 2020).
I am from Palestine (2023) de Rifk Ebeid e Iaman Zawahry
De modo a discutir os direitos expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos (Declaração Universal dos Direitos do Homem, 1948), mas também o conjunto das prioridades e aspirações expressas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e as metas neles traçadas na Agenda 2030 (ODS 2020), pesquisamos um modo sério, mas igualmente prazeroso e apelativo, para o conseguir a nível social e educativo. Ao longo da nossa inquirição encontramos o filme de animação I am from Palestine, uma curta-metragem datada de 2023 e elaborada por Rifk Ebeid e Iaman Zawahry. Ao longo da sua visualização, percebemos que esta poderia ser um gatilho eficaz e um promotor de diversas aprendizagens. Poderíamos assim, retirar elementos úteis que levassem à discussão, transformação e mudança que almejávamos para os nossos interlocutores (I am from Palestine 2023). Percebemos que poderíamos, através da sua narrativa, transmitir um conjunto de informações pertinentes para iniciarmos um debate e reflexão sobre alguns dos conteúdos que pretendíamos veicular, nomeadamente aqueles presentes nos Direitos Humanos expressos na Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948), bem como aqueles expostos nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e nas metas nele traçadas até ao ano de 2030, sobretudo nos 5.º, 10.º e 16.º Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 2022). Através da sua narrativa, efetivámos um debate sobre temáticas emergentes, principalmente questões sobre direitos humanos, identidade, diversidade, soberania e nacionalidade, bem como sobre as consequências decorrentes dos conflitos que violentam as nossas formas de vida, independentemente da nossa localização geográfica. Neste conjunto, encontramos os fenómenos da migração, bem como de todas as formas de violência ou discriminação, dos quais a proliferação da fome, da guerra e da paz são consequências.
Alvo de discussão e reflexão desde o século anterior, a promoção dos Direitos Humanos e daqueles narrados nos ODS, são questões que se mostram como nunca atuais, e de discussão urgente em face das opções políticas e sociais que se têm vindo a estabelecer um pouco por todo o mundo, afetando a todos sem exceção. Quesitos ligados ao desrespeito da pessoa humana, da sua soberania, da sua cultura e identidade, são colocados em cima da mesa quando vislumbramos surgirem nas sociedades contemporâneas o apelo à discriminação e à violência, evidenciando uma total falta de empatia e solidariedade para com o outro. Acresce um atentado direto à sua liberdade, bem como de respeito por tudo aquilo que é diferente, intentando a sua aniquilação naquilo que são a sua identidade e diversidade cultural, social e até religiosa. Cada vez mais os incentivos ao desrespeito grassam um pouco por todo o mundo, tanto física como virtualmente, sendo até alimentados por algumas forças políticas e por um poder habilidoso que não reage de forma firme perante a situação. Acresce a tudo isto o ataque e massacre deliberados a todos aqueles e aos espaços que apresentam e divulgam a diversidade étnica, religiosa e cultural. Perante o desrespeito de todos eles e de todos os espaços pelos quais circulam, surgem os atentados aos Direitos Humanos, nomeadamente os nossos. Assim, de modo a marcarmos a diferença e para que não sejamos fator de proliferação de atitudes menos dignas, vimo-nos abrigadas a agir, discutindo, a partir da proposta identificada, I am from Palestine, todas as formas de violência, desrespeito, discriminação e desigualdade que presenciamos a nível humano, social, ético e moral em sociedade. Neste conjunto, encontra-se ainda a discussão sobre ações de invasão territorial de um espaço geográfico, com a apropriação e alienação da cultura e das tradições dos povos aí residentes, visando o seu aniquilamento e progressivo esquecimento. Todos estes elementos são incompatíveis com o narrado nos artigos 2.º, 3.º, 6.º, 12.º, 13.º, 14.º, 15.º, 16.º, 18.º, 19.º, 27.º e 28.º da Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948).
Formas de erradicação e violência racial e étnica que promovam o desaparecimento da identidade cultural de um indivíduo e sua família, bem como qualquer tentativa de eliminação das suas cultura e tradições, são fatores que devemos divulgar e contrariar pois que também colidem com o expresso na referida Declaração (Declaração Universal dos Direitos do Homem 1948). Assim sendo, e dado que vivemos atualmente situações de opressão, invasão e alienação de algumas culturas e identidades, bem como dos povos residentes nessas zonas do globo, consideramos que a produção de filmes de animação que realizem uma reflexão sobre estas temáticas, pode ser um fator determinante para a efetivação de uma educação responsável e inclusiva. Em outro, os registos criados podem ser utilizados como gatilho para o desenvolvimento de atividades promotoras de conhecimento em diferentes níveis de ensino, com distintas faixas etárias e interesses, com vista à discussão de tão importantes assuntos e temáticas, consubstanciando-se, aos poucos, em atitudes de transformação e mudança.
Neste sentido, o cinema de animação assume-se como um recurso educativo de grande relevância, na medida em que alia a dimensão estética à capacidade de comunicar conteúdos complexos de forma clara, acessível e envolvente. Através de linguagens visuais apelativas, metáforas e narrativas simbólicas, consegue simplificar conceitos abstratos sem os reduzir, promovendo uma compreensão mais profunda de temas bastante complexos e profundos como sejam os relativos à identidade, diversidade, soberania e nacionalidade. Para além disso, o seu carácter criativo e muitas vezes universal permite ultrapassar barreiras linguísticas e culturais, tornando-se um meio privilegiado para sensibilizar diferentes públicos, mormente aqueles que aqui hoje queremos alcançar. Ao envolver emocionalmente o espectador, estimula não só a empatia, mas também o pensamento crítico, elementos essenciais no processo educativo bem como na formação de cidadãos mais conscientes, empáticos e participativos.
O filme
I am from Palestine (2023) de Rifk Ebeid e Iaman Zawahry inicia com a nossa protagonista a exibir orgulhosamente a sua proveniência e naturalidade. A jovem protagonista, ao preparar-se para o seu primeiro dia de aulas na nova Escola, veste e coloca alguns adereços que mostram a sua origem e a sua descendência, uma naturalidade que nos remete para um país em particular, a Palestina (0’00’’ – 0’20’’). O filme principia mostrando a imagem de sua casa. A cena encontra-se suportada por um sonoro em crescendo que antecipa o aparecimento da jovem no seu interior. Em correria sobre um tapete azul, como azul é o céu do seu país, a menina corre em busca da sua bandolete em forma de um crescente de lua (0’04’’). Entre os símbolos mais representativos da fé islâmica encontramos a lua crescente com a estrela e o hamsá, também conhecido como mão de Fátima. O verde também é bastante importante para os muçulmanos, pois segundo o Alcorão é a cor da roupa de todas as pessoas que habitam o Paraíso. O crescente, para além de representar soberania e dignidade, é símbolo da renovação da vida e da natureza. Este símbolo faz ainda uma referência direta ao calendário lunar, aquele utilizado para reger a religião islâmica (I am from Palestine 2023).
Símbolo da sua identidade, e da sua identidade religiosa em particular, a bandolete em forma de crescente encontra-se colocado sobre uma toalha branca. Em seguida a menina busca por um pendente que percebemos ter a forma do seu país – a Palestina. Em cor amarelo doirado, sugerindo a importância que possui para o seu dono, é alvo de um olhar de admiração por parte da protagonista. O pendente revela mais uma vez a sua origem, pois possui gravado o nome do seu país – “Palestine” (0’05’’). A mochila, de um azul profundo como o céu, encontra-se junto à porta de saída da sua casa, sendo que as suas alças se encontram ornamentadas por inúmeras estrelas (0’07’’). A estrela é um outro símbolo da sua identidade. Indica os cinco pilares da religião islâmica: oração, caridade, fé, jejum e peregrinação. Feliz por ir para a escola, preparando-se de forma cuidada para impressionar os seus colegas e professora, a protagonista sorri em frente a um espelho (0’09’’). Antes mesmo de sair, aperta o pendente obtendo a força e segurança necessárias ao desafio que se coloca pela frente (0’21’’) (I am from Palestine 2023).
Na cena seguinte é-nos apresentada a nova escola da petiza. A imagem de um recreio com diversas crianças que brincam alegres antes da sua entrada para a sala-de-aula é a nova realidade. A campainha toca e vê-se a menina a caminhar no corredor de acesso à sala-de-aula com o seu pai que a leva até à porta (0’24’’). Ela vai olhando apreensiva, enquanto caminha. Denota o desconforto perante o desconhecido e a diferença com que se depara ao caminhar. A imagem de seu pai (0’29’’) devolve-lhe alguma segurança, não só na forma como caminha, mas também no aperto da mão que lhe devolve (0’30’’). Acresce o modo como se despede dela à porta da sala. Neste ponto, o sonoro do filme traduz a interrogação da nossa protagonista face ao desconhecido (0’38’’), pois que se depara com a visão da sua sala-de-aula já repleta de alunos e da professora em frente ao quadro (0’39’’) (o relógio na parede marca 08:47 horas), (I am from Palestine 2023).
Depois de olhar a turma vira-se em direção ao pai com uma expressão de medo e insegurança, recebendo de seu pai a motivação e a força necessária para adentrar (0’47’’). O sonoro é, neste momento, mais denso. Suportado agora por uma melodia que identifica a protagonista e uma harmonia nas cordas, dá-lhe o apoio necessário a que avance segura da sua força e da sua pertença cultural (0’56’’). A escala ascendente reforça esta força e o ímpeto da petiza quando por fim se senta no seu lugar (1’02’’) (I am from Palestine 2023).
Outro toque de sineta sinaliza o começo de uma nova etapa no seu dia, a qual inicia com a professora a dar as boas-vindas a todos os alunos no seu primeiro dia de aulas (1’03’’). Neste momento não existe um sonoro de fundo o que reforça o impacto da cena que se seguirá. A chamada de todos os alunos através da folha de presenças que ela lê em voz alta (1’09’’). Se os dois primeiros nomes são ditos sem hesitação, pois que da língua inglesa se trata, ao se deparar com um nome diferente a professora vacila, pois que o não sabe pronunciar. De notar que este facto é o primeiro elemento discriminatório do filme. Em outro, o tipo de informação expressa denota um tipo de discriminação que constrange e humilha, pois que é negativa. A professora não tem dificuldade em pronunciar o nome da colega Kelly (1’09’’) ou do colega Billy (1’13’’), revelando dificuldade para dizer o seu: Saamidah (1’14’’- 1’21’’). A dificuldade e o embaraço são anulados pela menina que, de modo a ajudar a professora, levanta a mão e diz o seu próprio nome. Esta dificuldade, parecendo aparentemente inofensiva, contribui para a discussão de um outro ponto importante neste nosso projeto. A distorção sonora de uma palavra, de um nome próprio neste caso, como elemento de distorção da própria identidade. Para que a comunicação se dê, esta distorção tem de ser aceite e interiorizada por aquele que a recebe, neste caso a nossa protagonista. A não pronunciação correta do seu nome, a sua marca identitária perante o universo que são os outros, é um fator não só discriminatório como de inegável violência entre pares. Acresce que denota o prenúncio de toda a problemática que surgirá ao longo do filme (I am from Palestine 2023).
Depois de feita a chamada e a apresentação dos alunos, a professora anuncia que irão fazer uma atividade onde todos poderão identificar o local de onde são provenientes. A atividade pretende demostrar que todos são únicos e portadores de uma cultura e identidade distintas, anunciando, assim, a importância da diversidade cultural em contexto sala-de-aula. A atividade começa com a professora a dizer que irão identificar no mapa-mundo o seu país de origem (1’33’’). De modo a fomentar a participação de todos, inicia a atividade marcando o seu próprio país de origem: a Irlanda (1’38’’). De seguida pergunta quem quer ser o próximo a identificar o seu país e uma das meninas, Jennifer Grey, mostra intenção de participar anunciando que a sua família é proveniente do Reino Unido (1’45’’). A nossa heroína declara intenção, também ela, de participar apertando o pendente que tem a forma do seu país – a Palestina. Neste gesto denuncia o orgulho que tem da sua origem demonstrando ainda a sua pertença cultural (I am from Palestine 2023).
Nenhum outro colega possui qualquer elemento que denuncie a sua proveniência geográfica ou cultural. Antes mesmo de ela se dirigir para o mapa, a sua colega Lily vai assinalar que procede da Alemanha (1’58’’). À medida que os colegas vão assinalando o seu país de origem a professora reforça positivamente a ação. Surge, por fim, a vez de Saamidah (2’01’’). Com uma imensa alegria no olhar, suportada musicalmente por uma linha melódica simples (tal como no início) realizada num xilofone ao qual se junta um baixo simples que a suporta na sua caminhada até ao quadro, Saamidah confronta-se com um mapa gigante ao seu olhar. E o inesperado se dá. A nossa pequena busca o seu país e não o encontra. Pelo facto, vira-se com uma expressão de interrogação e espanto para a professora, pois que não encontra o seu país, a Palestina, assinalada no mapa que a mesma descerrou para todos (2’13’’) (I am from Palestine 2023).
Neste momento são já três as camadas de som que podemos discernir no sonoro do filme, pois é acrescentada uma linha que denuncia as características da música desta geografia do globo. De uma violência indiscritível, vemos, sem sombra de dúvida, a indicação de Israel para o espaço geográfico do seu país e que a menina tem representado no formato do pendente que orgulhosamente transporta ao pescoço. A componente sonora que suporta a situação, detentora de uma instrumentação que usa um instrumento de cordas com características harmónicas, produz um suporte melódico e rítmico característico da música tradicional desta região do globo. A linha melódica, exibindo uma interrogação sonora, é suportada pela imagem da pequena apertando o seu pendente olhando para o chão triste e em profundo desalento. E uma pergunta se faz em seu interior: onde está o meu país de origem, onde está a Palestina (2’17’’)? O movimento do olhar, em sentido ascendente é reforçado pela linha melódica que preenche o intervalo de quinta perfeita a partir do movimento 1-3;1-5, e a interrogação se faz - Palestina? (2’27’’), mostrando o pendente que orgulhosamente aconchega em sua mão (I am from Palestine 2023).
O ar de desalento da professora revela-nos que a mesma também se encontra surpreendida. Indica igualmente consciência da situação em que se encontra. A atividade que propôs, pretendendo ser inclusiva e respeitadora da diferença e da identidade cultural de cada um, mostra-se, neste momento, discriminatória e usurpadora de uma cultura, identidade e país. No mapa não conseguimos identificar todos os países e, por consequência, torna-se impossível identificar o país de Saamidah. Tentando superar o constrangimento e a dificuldade, tem uma ação ainda mais violenta pois que lhe propõe que coloque o pino sobre um outro país - Israel. Parece inofensivo, mas é uma ação de aniquilação identitária e cultural. Além disso, surgem questões ligadas à soberania de um país. Neste fazer, o sonoro é também ele distinto do anterior pois que já não revela as características do seu país de origem (2’27’’). Instrumentos, linha melódica, harmonia e rítmica usadas não são consentâneas com o seu país de origem, mas com o espaço de acolhimento, os Estados Unidos da América, anunciando a força do processo de aculturação (I am from Palestine 2023).
A professora, desanimada, dado que a sua expressão corporal e facial o denuncia, assim como a interrogação que deixa sair dos seus lábios ao olhar o mapa (2’34’’), quando afirma que não existe nenhuma Palestina, pois que só vê Israel e a Jordânia, afirma que irá assinalar para ela o país Israel (2’40’’). Desânimo e frustração é o que sente Saamidah quando larga o seu pendente, com uma expressão triste dirigindo-se para o seu lugar (2’42’’). Este momento é o marco que inicia uma discussão sobre a problemática abordada neste filme: a discussão sobre a aceitação e o respeito da origem, identidade cultural e referências culturais de um ser humano que se encontra fora do seu país de origem. Acresce a discussão sobre a diferença e o respeito dos direitos humanos, elementos essenciais que se encontram narrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948) (I am from Palestine 2023).
Encontrando-se profundamente emocionada pelos factos vividos no seu primeiro dia de aulas, e já em casa, Saamidah questiona seu pai sobre a sua origem. Nesta ação, percebemos a emoção que resvala, pois que tem os olhos rasos de água (2’50’’). O piano é usado como suporte musical desta cena forte e intensa. Para que Saamidah perceba onde se situa o seu país de origem, o pai dirige-se para a sala e a um quadro que se encontra pendurado em lugar de destaque numa parede. Caminhando sobre um tapete persa, um outro símbolo identitário, senta-se no sofá com o quadro que gentilmente retirou da parede. A pequena, sentada ao seu lado, percebe finalmente onde se encontra o seu país: a Palestina. Saamidah percebe que este se encontra ali bem referenciado e em destaque. Nesse ato, seu pai identifica-lhe o país que no mapa da escola estava indicado como sendo Israel, um país que sabemos ser invasor da Palestina (3’11’’). O seu olhar se ilumina e um generoso sorriso abre o seu rosto anunciando que, afinal, o seu país e as suas origens estão ali contempladas e salvaguardadas (3’15’’). Generoso e paciente, seu pai revela-lhe que ela é da Palestina, também conhecida como a “Noiva dos Mares”, pois que se encontra repleto de praias doiradas (I am from Palestine 2023).
E uma mudança de cenário se opera sendo que a pequena é inebriada de um espírito novo e conquistador. O seu rosto se ilumina, uma luz surge (3’16’’) sobre a Palestina qual farol orientador (3’17’’). Num crescendo de intensidade, dá-se a mudança total no espírito e no discurso das imagens e, a nossa heroína, surge numa postura alegre e confiante depois de entrar no espírito social e cultural do seu país (3’19’’). Perante a imagem da sua Palestina envolta em luz e num sonoro que nos remete para a música tradicional deste país, naquilo que é a instrumentação, o ritmo e a melodia, e a língua empregues (3’26’’), a nossa heroína está feliz por se encontrar de novo segura das suas origens, apresentando-nos todas as suas particularidades sociais e culturais – mercados e feiras, flora, artesanato, danças tradicionais, gastronomia e costumes, e lenços tradicionais reveladores de uma identidade social e cultural (I am from Palestine 2023).
E a nossa pequena se mune de um lenço que coloca sobre as costas e come um pão tradicional por forma a afirmar esta pertença (4’05’’). Uma mudança se anuncia (4’06’’) pois que a imagem se detém por alguns segundos naquilo que são alguns dos símbolos culturais e religiosos desta faixa de território nesta zona do globo, nomeadamente as abóbodas das sinagogas e mesquitas cada uma de um lado e outro do écran, com a nossa heroína ao centro e três pássaros que esvoaçam cantando ao centro do écran efetuando a ligação entre os opostos presentes nos extremos do écran (4’09’’). A imagem se esbate e o écran a branco (indicando silêncio, 4’10’’) prepara a cena que se segue e onde a nossa heroína se encontra revitalizada em energia e segura de si mesma face aos demais (4’12’’). A sua alegria se reafirma na verbalização que efetua: eu quero ir para a Palestina, olhando feliz o seu pai (4’15’’) que afirma nós retornaremos. O filme retoma também ele a imagem inicial da casa, retorno na forma tripartida à reexposição temática, dando início a uma nova fase de reafirmação cultural e social da nossa pequena (4’21’’-4’37’’) (I am from Palestine 2023).
Depois de a professora afirmar que vão continuar com as atividades que iniciaram na aula anterior, Saamidah levanta o braço, e munida de todos os adereços que confirma a sua identidade social e pertença cultural, nomeadamente t-shirt com bandeira da palestina, lenço sobre as costas, pendente com o mapa, bandolete com motivos religiosos e tradicionais, e o mapa que traz de casa, afirma com toda a força que se chama Saamidah e que vem da Palestina (4’52’’). E toda a sua força é suportada pela música tradicional desta zona geográfica do globo, da responsabilidade do Grupo de Dança Palestina El-Funoun, num claro apelo à aceitação de todos os povos, culturas e religiões num espaço que se quer de convívio fraterno entre todos os povos. Diz-nos ainda que é pela aceitação da diferença que crescemos de forma individual e coletiva sendo que a tolerância e a fraternidade são as chaves da aceitação da diferença e do outro, numa sociedade que se quer justa e plural fazendo eclodir a vigência de todos os direitos expressos na Declaração Universal dos Direitos do Homem e no expresso em alguns dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, enquanto metas expostas para a Agenda 2030 ( Declaração Universal dos Direitos do Homem 1948; ODS 2020; I am from Palestine 2023).
Conclusão
A curta-metragem sobre a qual enfocámos a nossa análise, apresenta-nos uma discussão bastante pertinente sobre questões de identidade, diversidade, soberania e nacionalidade, temas que se revelam centrais no mundo contemporâneo. Ao explorar estas dimensões, a narrativa convida à reflexão sobre o modo como os indivíduos se percecionam a si próprios e aos outros, bem como sobre as fronteiras — físicas e simbólicas — que continuam a moldar as sociedades atuais. Neste contexto, é possível estabelecer uma ligação direta com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, particularmente o 5.º - Igualdade de Género, o 10.º - Redução das Desigualdades e o 16.º - Paz, Justiça e Instituições Eficazes, que promovem a criação de sociedades mais inclusivas, equitativas e respeitadoras da diversidade cultural e identitária. I am from Palestine evidencia, ao longo da sua narrativa, como a exclusão, o preconceito ou a negação da identidade podem gerar conflitos e injustiças, contrariando os princípios fundamentais destes objetivos globais e a aplicação de uma educação inclusiva e respeitadora do indivíduo e das suas particularidades e identidades culturais.
Paralelamente, a temática abordada encontra forte ressonância na Declaração Universal dos Direitos Humanos, nomeadamente nos seus princípios de igualdade, dignidade e da não discriminação. O direito à identidade, à nacionalidade e à livre expressão cultural são pilares fundamentais que devem ser garantidos a todos os indivíduos, independentemente da sua origem ou contexto (Declaração Universal dos Direitos Humanos 1948). I am from Palestine relembra-nos que estes direitos nem sempre são plenamente respeitados, reforçando a importância de uma consciência crítica e de uma ação coletiva em sua defesa, a qual se inicia na proposição de formas de educação que se mostrem verdadeiramente inclusivas. Assim, a obra não só problematiza questões atuais e complexas, como também se assume como um instrumento de sensibilização, incentivando o respeito pela diversidade e a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e alinhada com os valores universais dos direitos humanos.
I am from Palestine (2023) de Rifk Ebeid e Iaman Zawahry permite-nos ainda relevar o cinema de animação como recurso promotor de uma educação inclusiva, fomentando a prática de uma cidadania mais ativa e responsável. Permitindo a discussão de temas tão importantes como a soberania, a cultura e a identidade, bem como as questões relacionadas com a paz e a necessidade de erradicar das nossas sociedades as desigualdades que ainda nelas grassam, surge um elemento indiciador e propiciador de transformação e mudança. Como encontramos narrado no 10.º ODS, Reduzir as desigualdades no interior dos países e entre países, e enquanto cidadãos e agentes educativos, devemos capacitar e promover a inclusão social, económica e política de todos, independentemente de idade, sexo, deficiência, raça, etnia, origem, religião ou condição económica ou outra. Devemos ainda garantir a igualdade de oportunidades, reduzir as desigualdades, eliminando leis, políticas e práticas discriminatórias. No 16.º ODS somos convidados a promover sociedades pacíficas e inclusivas, e a proporcionar o acesso à justiça para todos, construindo instituições eficazes, responsáveis e inclusivas a todos os níveis.
Para serem implementados, estes objetivos devem ser discutidos e apreendidos desde tenra idade. Para isso é fundamental a educação que podemos promover desde os primeiros graus de ensino. Através da curta-metragem de animação I am from Palestine procuramos desenvolver uma ação de intervenção em contexto educativo que se mostrou bastante positiva, motivadora e conducente à obtenção de um conjunto de resultados práticos. Através da narrativa proposta por Rifk Ebeid e Iman Zawahry propusemo-nos a promover o desenvolvimento de uma sociedade que se mostre, aos poucos e poucos, mais justa, pacífica e inclusiva. Através da visualização e discussão do seu discurso propusemo-nos igualmente à redução de todas as formas de violência, as quais grassam, as mais das vezes, de forma bastante subtil no nosso dia-a-dia.
Analisando a proposta fílmica tivemos a oportunidade de refletir ainda sobre diferentes formas de abuso, de violência e tortura exercidas, mormente sobre as crianças. O Guião, escrito por Iman Zawahry em parceria com Rifk Ebeid é um exemplo de subtiliza no modo como apresenta os temas nele discutidos. Iman Zawahry é uma das primeiras cineastas americanas de origem muçulmana que usa o hijab nos Estados Unidos. O facto demostra a sua força e a sua intenção interventiva, formativa e educativa. Mostra ainda a necessidade de afirmação de uma cultura, de um modo de ser e estar diferente que é necessário respeitar. Iman Zawahry intenta ainda dar voz às mulheres sub-representadas e alvo de discriminação e violência um pouco por todo o mundo. A sua ação é, pois, de uma relevância extrema para que se consiga uma transformação e mudança de mentalidades.
Corroborando os nossos objetivos, consideramos ser de relevo a discussão sobre os temas propostos, os quais se revelam muito importantes para a transformação necessária e o enriquecimento e conhecimento de todos ao nível da cultura e dos povos. É necessário promover a aceitação e a convivência pacífica entre distintas culturas, povos, raças e etnias, atingindo assim a paz e promovendo a diversidade cultural e o respeito pelos outros, elementos narrados nas distintas Cartas dos Direitos Humanos desde 1948 (Declaração Universal dos Direitos Humanos 1948; Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género 2021).
A mudança confirmará ainda a vigência plena dos diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável definidos na Agenda 2030 (ODS, 2022). Então porque não mudar? A partir de ações de esclarecimento e de educação para a mudança é possível alterar comportamentos e ações. Quando na posse de muitos, a transformação impacta o estado em que se encontra um país, uma sociedade. Assim, se compreendemos e aceitamos que
Um só indivíduo não consegue mudar, por si só, situações e estruturas discriminatórias e opressivas, mas quantos mais indivíduos se unirem e agirem concertadamente, estando organizados, maiores serão as possibilidades de poderem em conjunto produzir algum efeito de mudança consistente (Pinto 2011, 65),
e, consequentemente alcançaremos a harmonia e a paz.
O cinema, sobretudo o cinema de animação, enquanto recurso e ferramenta de intervenção educativa, social e cultural é, no nosso entender, um recurso eficaz no campo da educação inclusiva, mas também informal e não formal, revelando-se um espaço de encontro, partilha e construção. No modo como procede, revela-se ainda um recurso potenciador de práticas sociais inclusivas, colmatando dificuldades e descartando, aos poucos, vulnerabilidades e fragilidades. Deste ponto de partida, a análise e reflexão sobre os conteúdos propostos em I am from Palestine (2023), permitiu-nos implementar uma forma diferente de veicular conhecimentos, transformar atitudes e valores, para que o cinema de animação seja um promotor de direitos e liberdades, mas também de soberania, respeito, cultura e identidade.
Bibliografia
Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género. 2021. https://www.cig.gov.pt/. Acedido em 11 de março de 2026.
Declaração Universal dos Direitos Humanos. 1948. Adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (resolução 217 A III) em 10 de dezembro 1948. https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos. Acedido em 10 de março de 2026.
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. 2022. https://ods.pt/ods/. Acedido em 10 de março de 2026.
Pinto, C. 2011. Representações e práticas do Empowerment nos trabalhadores sociais. Tese de Doutoramento. Lisboa: Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.
Social Inclusion. 2014-2020. https://ec.europa.eu/regional_policy/policy/themes/social-inclusion_en. Acedido em 10 de março 2026.
Filmografia
I Am From Palestine. 2023. De Rifk Ebeid e Iaman Zawahry. Estados Unidos da América. https://www.youtube.com/watch?v=BAujeFizTi4. Acedido em 12 de dezembro 2025.